Todos olhavam para mim com olhos esbugalhados de quem julga. Julgavam-me criminoso, e eu não o era. Não tinha culpa de nada do que acontecera momentos antes. Eu não servia nem de testemunha ocular, apenas fui o primeiro a chegar. O que os olhos esbugalhados viam era o mesmo que meus olhos amedrontados viam. Ninguém entendia que estava acontecendo.
As pessoas cochichavam supondo o que ocorrera. Os sensatos, no entanto, apenas olhavam e aposto que imaginavam coisas a meu respeito e ao fato, não falavam nada. Eu queria sumir dali. Não me sentia confortável, estava sendo sufocado, mas estava imobilizado. Qualquer movimento poderia ser fatal.
Pensei que poderia ser mais uma daquelas histórias de relacionamentos que não deram certo, ou por afinidade, embora eu não consiga entender como as pessoas se apaixonavam por alguém que não tivessem afinidade, ou por traição, desgaste da relação. Queria poder falar algo, me pronunciar, me defender. Mas não era possível. Queria falar o que vi, mostrar que cheguei quando tudo já estava feito. Mas qualquer movimento que eu realizava, por menor e mais lento que fosse, era motivo de gritaria e ofensas.
Eu estava em fogo cruzado. Sentia que meu ombro estava encharcado e eu não podia fazer nada. Ao fundo de tanto barulho consegui ouvir o badalo do sino. Era meio-dia. Sentia o Sol queimar meu rosto. O suor já pingava no chão – não só o meu. Alguns abriam guarda-chuvas para tentarem fazer sombras. Nesse momento, os olhares de piedade já se voltavam para mim. Ouvia algumas vozes, ao longe;
- Que coragem! Esse homem vai para o céu.
- Digno de um herói.
Achava bonito o que diziam, mas eu estava com sede, com fome e só queria sair dali. O tempo demorava um pouco para passar. A fome apertava, passei a sentir vontade de ir ao banheiro. Depois de muito agonizar, no sol escaldante, a tarde começou a cair e a noite chegou.
-Até quando ficaria ali? – pensava irritado.
Muitos dos que estavam desde o começo foram embora, alguns poucos ficaram. Outros novos curiosos surgiram. Entre as pessoas comuns, existiam repórteres, jornalistas e fofoqueiros. Permaneci acordado aproximadamente mais duas horas, depois não consegui e fui vencido pelo cansaço. Adormeci em meio a loucura que estava a minha vida.
Não sonhei mas tive um sono tranqüilo, considerando a minha realidade. Acordei sendo cutucado por um dedo gordinho. Cutucava-me como quem cutuca um morto. Abri meus olhos e percebi que já era dia. Os sinos badalaram mais uma vez. Seis horas da manhã. Como de costume, rezei uma Ave Maria, fiz o Sinal da Cruz, e só então me toquei que estava livre. Olhei ao redor e percebi que agora eu não era mais o centro das atenções, existia uma aglomeração de pessoas olhando para baixo, no rio. Levantei rapidamente e me coloquei a olhar também. Então entendi o que acontecia. Mais um suicídio. Era o terceiro da semana, oitavo do mês. Busquei algumas informações e descobri que eram seis filhos, o pai e a mãe. Passei na igreja do sino, fiz uma prece e voltei à ponte onde eu fui agarrado pelo último da família. Lá ouvi choros desesperados. Uma pessoa dava entrevista a um dos repórteres e dizia que a família se matou porque a filha mais nova morrera no hospital por motivos desconhecidos. Lembrei-me do que me diziam quando eu era criança e ainda morava no interior:
- Sempre que alguém morre, as igrejas põem os sinos a tocarem, anunciando o falecimento.
Ao fim do meu pensamento, barulho de pequenas sinetas se aproximava. Era a procissão para os mortos. Percebi então, que cada vez que o sino tocava, não indicava seis horas ou meio-dia, indicava mais um suicídio, e por tal razão a mulher não me soltava, queria ter certeza que apenas um filho a veria morta.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
O significado de uma chuva
Andava pela rua, segurando um guarda-chuva preto. Desviava de algumas poças e pisava em outras. O dia chuvoso não era motivo para tristeza. Alguns carros passavam e molhavam Tom, mas ele ria. Algo especial acontecia com ele, e nem sequer imaginava o que era.
Todo molhado, cantava feliz. Talvez se lembrasse de “Singing in the rain”, talvez não. O dia não fora fácil, mas andar cantando o fazia feliz. As ruas da metrópole não estavam cheias, a cidade estava parada. Passou em frente à padaria, o cheiro de pão fresco o fez sentir fome. Andou mais um pouco e passou em frente à farmácia, passou por inúmeras lojas de roupas, lanchonetes. Seus passos eram cada vez mais engraçados, andava rebolando, cantando, girando. Os alunos de uma escola riram dele quando por lá passou, mas ele não ligou. Mais alguns passos e chegou à portaria do condomínio. O porteiro abriu a portão, não o cumprimentou, Tom, sorridente, disse boa noite, mas foi ignorado. Subiu de escadas, o elevador estava passando por reformas. No seu apartamento, sozinho, tomou um banho quente, arrumou o jantar e foi ver um filme qualquer que passava na televisão. Adormeceu.
Acordou no dia seguinte com o telefone tocando. Atendeu, e com voz de sono despejou um “eu te amo”. Desligou o telefone e voltou para a cama. Não conseguiu dormir mais. Levantou, tomou café e foi ver o álbum de fotografias. Sua auxiliar já estava trabalhando, mas ele a convidou para sentar no sofá preto com almofadas vermelhas da sala íntima. Gargalharam com as fotos. Eram fotos de quando ele tinha cinco ou seis anos. Riram das roupas, riram das poses. Ouviu-se um barulho de trovão e a luz apagou. A manhã não estava tão clara para ficarem sem luz. Procuraram por velas, pararam de ver fotografias e a vida continuou. A chuva cessara. Tom refez o caminho da noite anterior, porém em sentido contrário. Dessa vez não estava mais feliz. Quando chegou ao destino, ninguém o atendeu. Assustou-se. Ninguém o avisara que não estariam para atendê-lo. Sentia o coração apertar. Colocou a mão no bolso para pegar o celular e notou que havia esquecido o aparelho em casa. Sua fisionomia revelava a preocupação. Onde estariam aqueles moradores? Sentia-se fraco. Chamou mais algumas vezes, perguntou aos vizinhos, mas ninguém sabia responder. “Teriam fugido?” pensou Tom.
Na volta para casa, não conseguia pensar em nada. Fora a caminhada mais longa de sua vida, e a mais dolorosa também. Algumas vezes olhava para o céu, mas nem sinal de chuva. Tudo o que queria era livrar-se daquela vida. Poucos metros antes de seu prédio desviou o caminho. Virou à esquerda, à direita e seguiu em frente. Chegou a um lugar sujo, fedido. As pessoas que ali habitavam, viviam nas ruas e não em casas. Eram pessoas sujas, e com toda certeza, ao tomarem um banho quente revelariam a sua beleza exuberante. Muitos ali certamente nunca viveram uma vida confortável. Nunca assistiram a um filme no cinema, não sabem o que é teatro e nem imaginam como é o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tom não encontrava adjetivos para essas pessoas, mas via um futuro brilhante em muitos daqueles rostos.
Subitamente tirou do seu blazer uma caneta e alguns pedaços de papeis. Precisava ainda de seu celular, mas com aquilo que tinha em mãos encontrava a solução para as suas aflições. Chegou perto de um rapaz que aparentava ter em torno de 25 anos. O rapaz se esquivou, amedrontou-se. “É de um desses que eu preciso”, pensou Tom.
-Bom dia. Sou Tomas Aragão.
-Bom dia- respondeu assustado.
-Não tenha medo, não quero fazer mal algum. Tenho uma oportunidade de mudança de vida.
-Mudança de vida?
-Sim, senhor... como se chama?
-Carlos. Carlos da Silva.
-Carlos, então. Eu sou caça-talentos. Sabe o que é isso?
-Caça-talentos? Por acaso é aquelas pessoas que encontram artistas?
-Isso mesmo! E por isso estou aqui falando com você. Notei seu potencial, percebi que atrás de toda essa sujeira existe um homem bom.
Nesse momento, Carlos ficou pensativo. O que aquele homem estranho queria com ele? Seria um seqüestrador? Se fosse, nunca veria resgate, ele era pobre. E se fosse um caça-talentos de verdade? Seria possível encontrar algum talento nele, uma rapaz pobre, sujo e morador de rua?
Tom percebia no olhar de Carlos a desconfiança. Em muitos anos de profissão, tinha aprendido a interpretar a reação das pessoas.
-Não tenha medo Carlos. É que realmente vi uma chance de tirar você dessa vida. Você e alguns outros companheiros seus. Pode parecer estranho eu andar por aqui, mas eu quero ajudar pessoas como você. Cansei de escolher pessoas em shoppings, em faculdades caras e em condomínios de luxo.
Ele estava decidido a mudar a vida daquele homem. Com menos de cinco minutos de conversa, já não se preocupava com os outros moradores. Apenas ele. Ele seria o seu objetivo. Com a caneta em sua mão, escreveu em um papel o seu telefone. Anotou também o seu endereço, caso ele precisasse de um banho, de uma refeição. Despediu-se dele e voltou para a sua casa. Quando chegou em casa, desabou a chorar. Estava querendo fazer aquilo há dias. Chorou umas duas horas. Depois de se acalmar, ligou para aqueles que não o atenderam. Não era de ter intuições, não era sensível para isso, mas algo o dizia que seria a pior ligação de sua vida. Do outro lado da linha, alguém atendeu, com voz de choro.
Ele desligou. Não precisava de mais nada. Chorou mais uma vez.
- Por que não aceitou a minha ajuda? – gritava indignado.
Não demorou muito, e a ligação foi retornada. Ele apenas perguntou onde estavam, pegou alguns documentos e partiu em direção a eles. Dessa vez foi de carro. Avancou sinais vermelhos, entrou na contramão, excedeu os limites de velocidade. Porém, no tempo calculado estava à porta do prédio das janelas e portas de vidro. Algumas pessoas já esperavam por ele, então entregou os documentos necessários e subiu.
- Quarto 605. – alguém lhe disse.
Quando chegou, a imagem de alguém coberto por um lençol branco foi traumatizante. Correu e abraçou seu irmão.
-Por que recusaram a minha ajuda?
-Não podíamos aceitar. Não era justo.
-Eu queria ajudar. Acha que é justo eu chorar pela morte dela agora? Vive anos da minha vida com a sensação de abandono, de fragilidade. Qualquer chuva para mim era um tormento. Você sabe o que é ser abandonado na chuva? Sabe o que é viver 25 anos sem um abraço amoroso?
-Desculpe.
-Desculpas, desculpas! Eu queria tê-la por mais tempo. Queria aproveitar o que não tive em boa parte da minha vida. Eu tinha dinheiro para pagar o tratamento no exterior. Eu havia dito. Agora? Agora estou mais uma vez abandonado.
-Desculpe.
-Chega de pedir desculpas. Todos os papéis já estão encaminhados. As exéquias já foram pedidas, todo o funeral já foi organizado.
Depois disso, Tom voltou para casa. Não sem antes visitar Carlos. Chegando lá foi recepcionado com um caloroso abraço.
-Eu aceito sua ajuda Doutor...
-Doutor não, chame-me de Tom.
Depois do abraço, foram para o apartamento de Tom. Carlos jantou, se arrumou e acompanhou Tom no funeral. Após a cerimônia, já em casa, Tom agradeceu:
-Obrigado por me deixar te ajudar. Na noite antes de te conhecer, a chuva era a maior diversão pra mim. Tinha deixado de ser um trauma, pois minha mãe tinha me reconhecido, e se ela me abandonou aos sete anos na chuva, me aceitava aos 32 em um dia chuvoso. Hoje a chuva voltou a ser tristeza. Todas as despedidas de minha mãe foram regadas com chuva. Mas você, diferente de minha mãe, me deixou fazer parte de sua vida.
Nesse momento, lágrimas já escorriam dos olhos de Tom e de Carlos, ele continuou:
- Agora a minha vida tem sentido, agora eu não sou sozinho. Eu tenho valor para alguém, alguém que conheço tão pouco, como conhecia minha mãe.
Todo molhado, cantava feliz. Talvez se lembrasse de “Singing in the rain”, talvez não. O dia não fora fácil, mas andar cantando o fazia feliz. As ruas da metrópole não estavam cheias, a cidade estava parada. Passou em frente à padaria, o cheiro de pão fresco o fez sentir fome. Andou mais um pouco e passou em frente à farmácia, passou por inúmeras lojas de roupas, lanchonetes. Seus passos eram cada vez mais engraçados, andava rebolando, cantando, girando. Os alunos de uma escola riram dele quando por lá passou, mas ele não ligou. Mais alguns passos e chegou à portaria do condomínio. O porteiro abriu a portão, não o cumprimentou, Tom, sorridente, disse boa noite, mas foi ignorado. Subiu de escadas, o elevador estava passando por reformas. No seu apartamento, sozinho, tomou um banho quente, arrumou o jantar e foi ver um filme qualquer que passava na televisão. Adormeceu.
Acordou no dia seguinte com o telefone tocando. Atendeu, e com voz de sono despejou um “eu te amo”. Desligou o telefone e voltou para a cama. Não conseguiu dormir mais. Levantou, tomou café e foi ver o álbum de fotografias. Sua auxiliar já estava trabalhando, mas ele a convidou para sentar no sofá preto com almofadas vermelhas da sala íntima. Gargalharam com as fotos. Eram fotos de quando ele tinha cinco ou seis anos. Riram das roupas, riram das poses. Ouviu-se um barulho de trovão e a luz apagou. A manhã não estava tão clara para ficarem sem luz. Procuraram por velas, pararam de ver fotografias e a vida continuou. A chuva cessara. Tom refez o caminho da noite anterior, porém em sentido contrário. Dessa vez não estava mais feliz. Quando chegou ao destino, ninguém o atendeu. Assustou-se. Ninguém o avisara que não estariam para atendê-lo. Sentia o coração apertar. Colocou a mão no bolso para pegar o celular e notou que havia esquecido o aparelho em casa. Sua fisionomia revelava a preocupação. Onde estariam aqueles moradores? Sentia-se fraco. Chamou mais algumas vezes, perguntou aos vizinhos, mas ninguém sabia responder. “Teriam fugido?” pensou Tom.
Na volta para casa, não conseguia pensar em nada. Fora a caminhada mais longa de sua vida, e a mais dolorosa também. Algumas vezes olhava para o céu, mas nem sinal de chuva. Tudo o que queria era livrar-se daquela vida. Poucos metros antes de seu prédio desviou o caminho. Virou à esquerda, à direita e seguiu em frente. Chegou a um lugar sujo, fedido. As pessoas que ali habitavam, viviam nas ruas e não em casas. Eram pessoas sujas, e com toda certeza, ao tomarem um banho quente revelariam a sua beleza exuberante. Muitos ali certamente nunca viveram uma vida confortável. Nunca assistiram a um filme no cinema, não sabem o que é teatro e nem imaginam como é o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tom não encontrava adjetivos para essas pessoas, mas via um futuro brilhante em muitos daqueles rostos.
Subitamente tirou do seu blazer uma caneta e alguns pedaços de papeis. Precisava ainda de seu celular, mas com aquilo que tinha em mãos encontrava a solução para as suas aflições. Chegou perto de um rapaz que aparentava ter em torno de 25 anos. O rapaz se esquivou, amedrontou-se. “É de um desses que eu preciso”, pensou Tom.
-Bom dia. Sou Tomas Aragão.
-Bom dia- respondeu assustado.
-Não tenha medo, não quero fazer mal algum. Tenho uma oportunidade de mudança de vida.
-Mudança de vida?
-Sim, senhor... como se chama?
-Carlos. Carlos da Silva.
-Carlos, então. Eu sou caça-talentos. Sabe o que é isso?
-Caça-talentos? Por acaso é aquelas pessoas que encontram artistas?
-Isso mesmo! E por isso estou aqui falando com você. Notei seu potencial, percebi que atrás de toda essa sujeira existe um homem bom.
Nesse momento, Carlos ficou pensativo. O que aquele homem estranho queria com ele? Seria um seqüestrador? Se fosse, nunca veria resgate, ele era pobre. E se fosse um caça-talentos de verdade? Seria possível encontrar algum talento nele, uma rapaz pobre, sujo e morador de rua?
Tom percebia no olhar de Carlos a desconfiança. Em muitos anos de profissão, tinha aprendido a interpretar a reação das pessoas.
-Não tenha medo Carlos. É que realmente vi uma chance de tirar você dessa vida. Você e alguns outros companheiros seus. Pode parecer estranho eu andar por aqui, mas eu quero ajudar pessoas como você. Cansei de escolher pessoas em shoppings, em faculdades caras e em condomínios de luxo.
Ele estava decidido a mudar a vida daquele homem. Com menos de cinco minutos de conversa, já não se preocupava com os outros moradores. Apenas ele. Ele seria o seu objetivo. Com a caneta em sua mão, escreveu em um papel o seu telefone. Anotou também o seu endereço, caso ele precisasse de um banho, de uma refeição. Despediu-se dele e voltou para a sua casa. Quando chegou em casa, desabou a chorar. Estava querendo fazer aquilo há dias. Chorou umas duas horas. Depois de se acalmar, ligou para aqueles que não o atenderam. Não era de ter intuições, não era sensível para isso, mas algo o dizia que seria a pior ligação de sua vida. Do outro lado da linha, alguém atendeu, com voz de choro.
Ele desligou. Não precisava de mais nada. Chorou mais uma vez.
- Por que não aceitou a minha ajuda? – gritava indignado.
Não demorou muito, e a ligação foi retornada. Ele apenas perguntou onde estavam, pegou alguns documentos e partiu em direção a eles. Dessa vez foi de carro. Avancou sinais vermelhos, entrou na contramão, excedeu os limites de velocidade. Porém, no tempo calculado estava à porta do prédio das janelas e portas de vidro. Algumas pessoas já esperavam por ele, então entregou os documentos necessários e subiu.
- Quarto 605. – alguém lhe disse.
Quando chegou, a imagem de alguém coberto por um lençol branco foi traumatizante. Correu e abraçou seu irmão.
-Por que recusaram a minha ajuda?
-Não podíamos aceitar. Não era justo.
-Eu queria ajudar. Acha que é justo eu chorar pela morte dela agora? Vive anos da minha vida com a sensação de abandono, de fragilidade. Qualquer chuva para mim era um tormento. Você sabe o que é ser abandonado na chuva? Sabe o que é viver 25 anos sem um abraço amoroso?
-Desculpe.
-Desculpas, desculpas! Eu queria tê-la por mais tempo. Queria aproveitar o que não tive em boa parte da minha vida. Eu tinha dinheiro para pagar o tratamento no exterior. Eu havia dito. Agora? Agora estou mais uma vez abandonado.
-Desculpe.
-Chega de pedir desculpas. Todos os papéis já estão encaminhados. As exéquias já foram pedidas, todo o funeral já foi organizado.
Depois disso, Tom voltou para casa. Não sem antes visitar Carlos. Chegando lá foi recepcionado com um caloroso abraço.
-Eu aceito sua ajuda Doutor...
-Doutor não, chame-me de Tom.
Depois do abraço, foram para o apartamento de Tom. Carlos jantou, se arrumou e acompanhou Tom no funeral. Após a cerimônia, já em casa, Tom agradeceu:
-Obrigado por me deixar te ajudar. Na noite antes de te conhecer, a chuva era a maior diversão pra mim. Tinha deixado de ser um trauma, pois minha mãe tinha me reconhecido, e se ela me abandonou aos sete anos na chuva, me aceitava aos 32 em um dia chuvoso. Hoje a chuva voltou a ser tristeza. Todas as despedidas de minha mãe foram regadas com chuva. Mas você, diferente de minha mãe, me deixou fazer parte de sua vida.
Nesse momento, lágrimas já escorriam dos olhos de Tom e de Carlos, ele continuou:
- Agora a minha vida tem sentido, agora eu não sou sozinho. Eu tenho valor para alguém, alguém que conheço tão pouco, como conhecia minha mãe.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
De um olhar infinito
Os passos lentos pela praia revelavam algo melancólico. Melancólico não era a adjetivação correta. Triste, sim, era triste o algo revelado pelos passos. O andar parecia levar ao infinito. A brisa que soprava fortemente do mar bagunçava os cabelos e levava alguns grãos da areia aos olhos, que permaneciam cerrados, a fim de evitar que os tais grãos perturbassem a visão. As ondas não estavam agitadas, e não deveriam estar, já que o vento não era tão forte assim, a ponto de agitar as águas do mar.
Escolheu a praia para caminhar, não porque todos os apaixonados a escolhem, mas porque sentia algo especial por esse tipo de ambiente. O perfume, a sensação de frescor, e a tendência ao infinito faziam com que se sentisse bem. Ainda era cedo, mas algumas famílias montavam as barracas para passarem o dia feliz na praia. Elas enfrentaram um trânsito caótico, carros quentes e apertados, carregavam dezenas de quinquilharias, e teriam que se adaptar ao clima litorâneo. Essas pessoas conheciam a cidade fantasia: as belas praias, algumas estátuas, o píer e um aquário antigo, mantido porcamente pela administração municipal.
Enquanto caminhava, sentia a areia ser compactada pelos seus pés, algumas conchas se quebravam quando acidentalmente pisava nelas. Nada disso o incomodava. Algumas vezes iniciava uma pequena corrida, que não durava alguns poucos segundos. Ainda andando, olhou para o mar, avistou um barco de pescadores, era pequeno, virando a cabeça, observou a multidão que lotava o espaço com areia até que chegou com o olhar na outra direção. À sua esquerda, uma menina e dois garotos arrumavam as toalhas que serviriam para tomar Sol. Num movimento similar ao de uma onda as toalhas foram se alojando no chão. Os adolescentes sorriam. O olhar voltou lentamente para frente, e quando chegou no centro, tudo escureceu, rapidamente clareou, notou o azul do céu, num movimento parabólico, até chegar numa posição em que apenas o azul era visível. Sentiu o impacto. As pálpebras se fecharam a tempo de protegerem os olhos da água salgada que rapidamente cobriu todo o seu rosto. Não foi o suficiente para que se afogasse. Sentiu a água indo embora, abriu os olhos e notou uma mão estendida oferecendo ajuda. Sua mão encontrou a mão alheia. Tinha aceitado a ajuda.
Levantou-se e cordialmente agradeceu a ajuda e a preocupação. O agradecimento foi aceito e, tão logo, já estava sozinho. Correu e chamou. Seus olhos a fitavam, seu coração batia acelerado. Alguns rostos viraram em sua direção, sentiu-se acuado. Quando o rosto também virou em sua direção. Os olhos pretos também o fitaram. Ele correu na direção dela. Queria saber o nome, de onde era, a idade, o que fazia. Queria saber tudo o que podia. Mas quando se aproximou, apenas perguntou o nome. Ao longe, uma mulher de meia-idade se aproximava dos dois. Antes mesmo de responder a pergunta, a mulher gritou o seu nome. Ambos riram encabulados.
- Sou Gregori. – disse sem que ninguém o perguntasse.
- Ah sim, desculpe. Não perguntei o seu nome. Como ouviu, sou a Tati, e aquela é minha irmã, Ana.
- Olá Ana! Encantado com a beleza de vocês.
- Não se encante conosco. Aqui tem muito mais coisas que provocam encantamento.
Após isso, deram as costas e deixaram Gregori pensativo, solitário, como estava antes.
O vento parou de soprar. Ele olhou no relógio e viu que já estava na hora de retornar. Virou 180 graus, e seguiu rumo à sua casa. Lá, havia mulheres muito mais encantadoras do que as duas que encontrara minutos antes nas areias da praia. Sua avó certamente estaria esperando por ele, com um delicioso café da manhã, e sua mãe e sua filha esperando para que ele as levasse até a escola.
Seus passos agora estavam alegres. Vira pela manhã o céu. Não conseguiu ver o anjo, só uma imitação, mas ver o céu foi suficiente para fazê-lo feliz. Precisava disso, e o anjo também.
Escolheu a praia para caminhar, não porque todos os apaixonados a escolhem, mas porque sentia algo especial por esse tipo de ambiente. O perfume, a sensação de frescor, e a tendência ao infinito faziam com que se sentisse bem. Ainda era cedo, mas algumas famílias montavam as barracas para passarem o dia feliz na praia. Elas enfrentaram um trânsito caótico, carros quentes e apertados, carregavam dezenas de quinquilharias, e teriam que se adaptar ao clima litorâneo. Essas pessoas conheciam a cidade fantasia: as belas praias, algumas estátuas, o píer e um aquário antigo, mantido porcamente pela administração municipal.
Enquanto caminhava, sentia a areia ser compactada pelos seus pés, algumas conchas se quebravam quando acidentalmente pisava nelas. Nada disso o incomodava. Algumas vezes iniciava uma pequena corrida, que não durava alguns poucos segundos. Ainda andando, olhou para o mar, avistou um barco de pescadores, era pequeno, virando a cabeça, observou a multidão que lotava o espaço com areia até que chegou com o olhar na outra direção. À sua esquerda, uma menina e dois garotos arrumavam as toalhas que serviriam para tomar Sol. Num movimento similar ao de uma onda as toalhas foram se alojando no chão. Os adolescentes sorriam. O olhar voltou lentamente para frente, e quando chegou no centro, tudo escureceu, rapidamente clareou, notou o azul do céu, num movimento parabólico, até chegar numa posição em que apenas o azul era visível. Sentiu o impacto. As pálpebras se fecharam a tempo de protegerem os olhos da água salgada que rapidamente cobriu todo o seu rosto. Não foi o suficiente para que se afogasse. Sentiu a água indo embora, abriu os olhos e notou uma mão estendida oferecendo ajuda. Sua mão encontrou a mão alheia. Tinha aceitado a ajuda.
Levantou-se e cordialmente agradeceu a ajuda e a preocupação. O agradecimento foi aceito e, tão logo, já estava sozinho. Correu e chamou. Seus olhos a fitavam, seu coração batia acelerado. Alguns rostos viraram em sua direção, sentiu-se acuado. Quando o rosto também virou em sua direção. Os olhos pretos também o fitaram. Ele correu na direção dela. Queria saber o nome, de onde era, a idade, o que fazia. Queria saber tudo o que podia. Mas quando se aproximou, apenas perguntou o nome. Ao longe, uma mulher de meia-idade se aproximava dos dois. Antes mesmo de responder a pergunta, a mulher gritou o seu nome. Ambos riram encabulados.
- Sou Gregori. – disse sem que ninguém o perguntasse.
- Ah sim, desculpe. Não perguntei o seu nome. Como ouviu, sou a Tati, e aquela é minha irmã, Ana.
- Olá Ana! Encantado com a beleza de vocês.
- Não se encante conosco. Aqui tem muito mais coisas que provocam encantamento.
Após isso, deram as costas e deixaram Gregori pensativo, solitário, como estava antes.
O vento parou de soprar. Ele olhou no relógio e viu que já estava na hora de retornar. Virou 180 graus, e seguiu rumo à sua casa. Lá, havia mulheres muito mais encantadoras do que as duas que encontrara minutos antes nas areias da praia. Sua avó certamente estaria esperando por ele, com um delicioso café da manhã, e sua mãe e sua filha esperando para que ele as levasse até a escola.
Seus passos agora estavam alegres. Vira pela manhã o céu. Não conseguiu ver o anjo, só uma imitação, mas ver o céu foi suficiente para fazê-lo feliz. Precisava disso, e o anjo também.
sábado, 16 de outubro de 2010
Jardim Secreto
Ela olhava para o chão, ele ouvia tudo olhando para o horizonte.Não era aquilo que Victor queria escutar. Agora tinha certeza de que todas as suas noites em claro, todas as cartas que escrevera e todas as lágrimas derramadas não serviram para nada. Talvez até serviram para alimentar ainda mais um sentimento que o faz sofrer tanto agora.
Sentia falta dos abraços, dos carinhos, de todas as brincadeiras. Até mesmo das vezes em que teve que ser duro e brigar sentia falta. Todos os indícios da imaturidade, todos os defeitos, que nela tornavam-se perfeição, faziam uma enorme falta para Victor.
Não tinha como ter sido pior. A luz do céu refletia-se no alvo rosto de Suzan, seus cabelos moviam-se lentamente, os lábios nunca tocados por Victor mexiam-se, o provocavam, mas ele sabia que não podia fazer mais nada. Avançar seria perder a confiança, embora fosse tudo o que ele queria. Victor estava completamente confuso. Não sabia se cada palavra que escutava soava como música ou como ruído. Ele queria que fosse a mais bela melodia. Ela calculava cada palavra que pronunciava. Sua voz doce não se alterava. Suzan estava em maus lençóis. Mas Victor estava na mesma situação.
Por um instante ele tentou argumentar, mas foi em vão. Ela estava decidida. Não sabia se era a melhor decisão para o futuro, mas sabia que para o momento era a mais aceitável. Os argumentos dele eram egoístas e manipuladores. Os dela também. Um pouco mais egoísta do que manipulador.
Pela primeira vez não houve indiferença. O jogo tinha se invertido, e ele não estava mais com o controle nas mãos. Sofria tudo o que fez com outras pessoas. Ele sentia na pele a dor do egoísmo, mas não da indiferença. Suzan era doce até nas piores horas, e jamais o deixaria sofrer tanto. Ele sofreria a quantidade necessária, aquela quantidade que é inevitável.
Victor não conseguia perceber o tamanho da dor e do constrangimento dela. Só queria sumir, caminhar sem olhar para trás, sem ver o estrago que tinha causado. Sua vida ficou tomada pela incerteza, pelo arrependimento. Porque o coração tem dessas coisas? Era uma pergunta sem resposta. Percebeu que a luz não refletia mais e que Suzan ficava, aos poucos, irreconhecível. Os olhos turvaram-se. Não, era tudo o que ele menos precisava naquele momento. Sentiu percorrer todo o seu rosto algumas lágrimas, que caiam no chão timidamente.
Ele chorava por algo que nunca teve. Invejou, naquele momento, inúmeros rapazes que, com facilidade, chegaram perto de Suzan e sentiram o perfume e o toque macio dos lindos lábios. Invejou aqueles que recusaram dela o que ele quase implorava. Suzan percebeu o chão molhado, e passou a fitá-lo. Explicou pela segunda, terceira vez. Repetia o mesmo discurso, como quem fala com as paredes. Ele não conseguia falar nada. No horizonte passava o filme que idealizou um dia. A vida que tinha sonhado viver. Victor viu no horizonte cada sorriso dado por ela, cada abraço e cada beijo. Conseguia vê-la à porta da igreja vestida de noiva, emocionada, depois a viu toda feliz com um exame nas mãos confirmando a gestação, viu uma criança o chamando de pai, viu um casal de cabelos brancos sentado vendo o Sol se esconder entre as montanhas. Victor permanecia parado quando todas as idealizações foram se apagando, os sonhos não se tornariam realidade. A noiva perdeu o rosto, o exame de gestação desapareceu, a criança chamava a outro de pai, e os velhinhos naquele dia perderam o pôr-do-Sol. Victor achou a melhor imagem em sua memória, não a que queria ver, mas a que precisava ver. Não conseguiu descreve-la, não conseguiu distingui-la. Dizia ser a mais bonita, a mais real. Até hoje olho para o horizonte a procura dessa imagem. Victor a guardou da mesma maneira que guarda hoje o sentimento por Suzan. À maneira mais silenciosa e secreta, à maneira como todos os sentimentos deveriam ser guardados, no jardim secreto do seu coração.
Sentia falta dos abraços, dos carinhos, de todas as brincadeiras. Até mesmo das vezes em que teve que ser duro e brigar sentia falta. Todos os indícios da imaturidade, todos os defeitos, que nela tornavam-se perfeição, faziam uma enorme falta para Victor.
Não tinha como ter sido pior. A luz do céu refletia-se no alvo rosto de Suzan, seus cabelos moviam-se lentamente, os lábios nunca tocados por Victor mexiam-se, o provocavam, mas ele sabia que não podia fazer mais nada. Avançar seria perder a confiança, embora fosse tudo o que ele queria. Victor estava completamente confuso. Não sabia se cada palavra que escutava soava como música ou como ruído. Ele queria que fosse a mais bela melodia. Ela calculava cada palavra que pronunciava. Sua voz doce não se alterava. Suzan estava em maus lençóis. Mas Victor estava na mesma situação.
Por um instante ele tentou argumentar, mas foi em vão. Ela estava decidida. Não sabia se era a melhor decisão para o futuro, mas sabia que para o momento era a mais aceitável. Os argumentos dele eram egoístas e manipuladores. Os dela também. Um pouco mais egoísta do que manipulador.
Pela primeira vez não houve indiferença. O jogo tinha se invertido, e ele não estava mais com o controle nas mãos. Sofria tudo o que fez com outras pessoas. Ele sentia na pele a dor do egoísmo, mas não da indiferença. Suzan era doce até nas piores horas, e jamais o deixaria sofrer tanto. Ele sofreria a quantidade necessária, aquela quantidade que é inevitável.
Victor não conseguia perceber o tamanho da dor e do constrangimento dela. Só queria sumir, caminhar sem olhar para trás, sem ver o estrago que tinha causado. Sua vida ficou tomada pela incerteza, pelo arrependimento. Porque o coração tem dessas coisas? Era uma pergunta sem resposta. Percebeu que a luz não refletia mais e que Suzan ficava, aos poucos, irreconhecível. Os olhos turvaram-se. Não, era tudo o que ele menos precisava naquele momento. Sentiu percorrer todo o seu rosto algumas lágrimas, que caiam no chão timidamente.
Ele chorava por algo que nunca teve. Invejou, naquele momento, inúmeros rapazes que, com facilidade, chegaram perto de Suzan e sentiram o perfume e o toque macio dos lindos lábios. Invejou aqueles que recusaram dela o que ele quase implorava. Suzan percebeu o chão molhado, e passou a fitá-lo. Explicou pela segunda, terceira vez. Repetia o mesmo discurso, como quem fala com as paredes. Ele não conseguia falar nada. No horizonte passava o filme que idealizou um dia. A vida que tinha sonhado viver. Victor viu no horizonte cada sorriso dado por ela, cada abraço e cada beijo. Conseguia vê-la à porta da igreja vestida de noiva, emocionada, depois a viu toda feliz com um exame nas mãos confirmando a gestação, viu uma criança o chamando de pai, viu um casal de cabelos brancos sentado vendo o Sol se esconder entre as montanhas. Victor permanecia parado quando todas as idealizações foram se apagando, os sonhos não se tornariam realidade. A noiva perdeu o rosto, o exame de gestação desapareceu, a criança chamava a outro de pai, e os velhinhos naquele dia perderam o pôr-do-Sol. Victor achou a melhor imagem em sua memória, não a que queria ver, mas a que precisava ver. Não conseguiu descreve-la, não conseguiu distingui-la. Dizia ser a mais bonita, a mais real. Até hoje olho para o horizonte a procura dessa imagem. Victor a guardou da mesma maneira que guarda hoje o sentimento por Suzan. À maneira mais silenciosa e secreta, à maneira como todos os sentimentos deveriam ser guardados, no jardim secreto do seu coração.
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
O contador de histórias
Enquanto eu andava percebia que a calçada estava coberta pelas flores lilases e brancas que caíram das arvores. A paisagem não era estranha naquela época. Era setembro. Sua avó costumava me carregar em seus passeios matinais, principalmente nessa época, onde tudo estava mais bonito. Não sei se já contei como conheci a avó de vocês. Mas contarei, perdoem-me se estiver repetindo, mas começo a me lembrar de algumas coisas e quero contar. Seria tão bom se pudessem anotar, guardar a historia de vocês. A memória falha as vezes. Onde parei mesmo? Ah sim, ia contar como conheci a avó de vocês. Meus pais iam muito ao Jóquei, e eu sempre os acompanhava. Era o ponto de encontro de toda a alta sociedade paulistana. E sua avó também ia com os pais dela. Ela sempre usava vestidos claros e sapatinhos brancos. Não me recordo se o sapatinho branco era nessa época do Jóquei ou se na época em que nos casamos. Memória de velho não é tão boa como a de vocês. Falando em velho, queria ver aquele homem de cabelos brancos que as vezes vinha aqui pela manhã e me acordava. Lembro que um dia, meus pais tiveram que ocupar o mesmo camarote que os da sua avó. Foi ai que nos conhecemos. Depois desse dia, passamos a trocar cartas. Em pouco menos de cinco anos estávamos nos casando. A igreja era a do Bom Jesus da Lapa. Eu queria a de Nossa Senhora da Penha de França, mas as famílias não aceitaram, falaram que era loucura trocar uma igreja como a do Bom Jesus pela da Penha de França. Até hoje não entendi o motivo. Sua avó insistira para que eu casasse com um terno branco, mas eu não aceitei. Ela disse que ficaria lindo os noivos de branco. Eu sempre quis preto. Acabei casando de cinza, era o meio termo. Casamos em 1948, em 1953 nasceu a Clara. Essa não vingou. Depois em 1955 nasceu a Marialva. Nossa única filha. Era gorducha, tinha o cabelo vermelho e enrolado, a pele branquinha manchada de sardas e os olhos azuis. O cabelo alisou com o tempo. Ela me garantia que nunca passou o ferro quente nele, e ficou magra quando ficou adolescente, é isso que vocês chamam hoje em dia né?
Porque contei do nascimento de Marialva? Perdoem o avô de vocês, mas minha garganta dói um pouco. Meus pés não movimentam mais.
Eu falei que sempre saia para passear em setembro? Era a época das flores caírem das árvores com o vento, e pintavam toda a calçada. Eu costumava retratar com aquarela essa época, mas com o tempo elas sumiram. Depois da viagem aos Alpes Suíços a avó de vocês começou a jogar tudo no lixo. Era uma moça ainda. Não tinha nem trinta anos. Ela também passou a sair mais. Eu ia ao Jóquei sozinho, mas aquele lugar foi ficando vazio. As pessoas descobriram outras atividades. Eu não sabia qual era. Até que desisti de ir ao Jóquei. Passava o dia inteiro lendo jornais e ouvindo rádio. A televisão era chata como a minha vida. Preto e branco. Faltava cor, faltava luz. Eu via a cidade crescer e ganhar uma tonalidade cinza, como o terno do meu casamento. Aos poucos percebi que setembro chegava e as calçadas não ficavam mais coloridas. As árvores nem existiam mais. Morava numa casa grande, alegre no centro da cidade. Recebi da prefeitura um telegrama falando que eu precisava sair dela. Perdi meu jardim, um conforto e fui morar numa casa geminada na Mooca. Até hoje escuto aquele sotaque italiano sem graça daquele bairro. Ali nenhuma casa tinha jardim e eu escutava os passos do vizinho. Aos domingos a italianada só gritava. Não podíamos descançar. Para buscar sossego passamos a ir ao Parque Jabaquara. As ruas não eram esburacadas, mas com o passar dos anos começaram a fazer uns buracos enormes. Ouvia-se boatos de que era para o tal de metrô. Eu não fazia a menor idéia do que era aquilo. Nem nas missas da Catedral da Sé ficamos livres dos buracos, das desapropriações e do barulho. Uma praça bonita e um prédio sumiram. Não sei como não demoliram a igreja. Sei que depois de muito barulho o tal metrô começou a funcionar. Eu hesitei muito até entrar em um. As estações eram verdadeiras tocas, tudo muito quente. Funcionava num horário pequeno e nem abria aos domingos. Aquilo só serviu para demolir a minha bela casa e me mandar para o bairro da Italianada. A mãe de vocês resolveu se arranjar com um sujeito da Mooca. A avó de vocês aceitou de prontidão, eu fui obrigado a concordar. Me arrependo de ter concordado. Em questão de meses ele já estava morando lá em casa. Marialva casou na igreja da Penha de França, mas sem véu, sem grinalda e sem vestido branco. Eu nem fui à cerimônia. Só pensava na mancha vermelha que sujou meu clã. Dois meses depois do casamento você tinha nascido. A mancha na família era a única cor. Você saiu da maternidade de Cerqueira César com um sapatinho branco, é a única coisa que me lembro. Nessa época meus pais já tinham falecido. A avó de vocês não demorou muito a falecer. Eu fiquei arrasado. Ela foi cremada com o vestido de noiva dela. Sempre me pediu isso. Depois nasceu você. Você nasceu na Santa Casa, e nem foi para a Mooca. Seu pai tinha comprado um apartamento de estilo provençal no Sumaré. Era um apartamento espaçoso, grande, mas não tinha espaço para mim, que fiquei sozinho na Mooca com a italianada gritando. Começaram a construir o metrô da Paulista. Achei uma grande bobagem. Minha saúde já estava debilitada. Tossia sem parar, sentia dores. Em 1991 vim para aqui. E até hoje não sai. Dizem que fiquei dormindo quinze anos. Perguntei esses dias a Marialva se ela se recorda das minhas histórias e ela disse que não. Acho que nunca contei a ela. Entrou esses dias uma senhora com um sapato branco fazendo muito barulho. Reclamei e disse a ela que sapatos brancos deveriam ser usados com cautela, delicadeza. Ela olhou com desprezo, me aplicou uma injeção e eu dormi. Acordei com esse negocio no nariz, uns tubos maiores no braço e outros na barriga. Eu estava bem melhor, fazia dois anos que não usava isso, mas eles colocaram e pioraram minha saúde. Agora sinto um pouco de dor, não consigo abrir os olhos direito. Por isso falo de olho fechado. Vou tentar abrir mais uma vez, fiquem olhando para mim e me aplaudam. Vejo a moça dos sapatos brancos novamente, dessa vez, silenciosa, mas sempre com uma injeção nas mãos. Nem sinto mais quando me furam. Já foi? Estou com falta de ar... Estou tonto... Vejo um ponto bran...
Nesse momento fez silêncio no quarto. Lá fora, o vento fez com que os ipês roxos colorissem a calçada do hospital.
Porque contei do nascimento de Marialva? Perdoem o avô de vocês, mas minha garganta dói um pouco. Meus pés não movimentam mais.
Eu falei que sempre saia para passear em setembro? Era a época das flores caírem das árvores com o vento, e pintavam toda a calçada. Eu costumava retratar com aquarela essa época, mas com o tempo elas sumiram. Depois da viagem aos Alpes Suíços a avó de vocês começou a jogar tudo no lixo. Era uma moça ainda. Não tinha nem trinta anos. Ela também passou a sair mais. Eu ia ao Jóquei sozinho, mas aquele lugar foi ficando vazio. As pessoas descobriram outras atividades. Eu não sabia qual era. Até que desisti de ir ao Jóquei. Passava o dia inteiro lendo jornais e ouvindo rádio. A televisão era chata como a minha vida. Preto e branco. Faltava cor, faltava luz. Eu via a cidade crescer e ganhar uma tonalidade cinza, como o terno do meu casamento. Aos poucos percebi que setembro chegava e as calçadas não ficavam mais coloridas. As árvores nem existiam mais. Morava numa casa grande, alegre no centro da cidade. Recebi da prefeitura um telegrama falando que eu precisava sair dela. Perdi meu jardim, um conforto e fui morar numa casa geminada na Mooca. Até hoje escuto aquele sotaque italiano sem graça daquele bairro. Ali nenhuma casa tinha jardim e eu escutava os passos do vizinho. Aos domingos a italianada só gritava. Não podíamos descançar. Para buscar sossego passamos a ir ao Parque Jabaquara. As ruas não eram esburacadas, mas com o passar dos anos começaram a fazer uns buracos enormes. Ouvia-se boatos de que era para o tal de metrô. Eu não fazia a menor idéia do que era aquilo. Nem nas missas da Catedral da Sé ficamos livres dos buracos, das desapropriações e do barulho. Uma praça bonita e um prédio sumiram. Não sei como não demoliram a igreja. Sei que depois de muito barulho o tal metrô começou a funcionar. Eu hesitei muito até entrar em um. As estações eram verdadeiras tocas, tudo muito quente. Funcionava num horário pequeno e nem abria aos domingos. Aquilo só serviu para demolir a minha bela casa e me mandar para o bairro da Italianada. A mãe de vocês resolveu se arranjar com um sujeito da Mooca. A avó de vocês aceitou de prontidão, eu fui obrigado a concordar. Me arrependo de ter concordado. Em questão de meses ele já estava morando lá em casa. Marialva casou na igreja da Penha de França, mas sem véu, sem grinalda e sem vestido branco. Eu nem fui à cerimônia. Só pensava na mancha vermelha que sujou meu clã. Dois meses depois do casamento você tinha nascido. A mancha na família era a única cor. Você saiu da maternidade de Cerqueira César com um sapatinho branco, é a única coisa que me lembro. Nessa época meus pais já tinham falecido. A avó de vocês não demorou muito a falecer. Eu fiquei arrasado. Ela foi cremada com o vestido de noiva dela. Sempre me pediu isso. Depois nasceu você. Você nasceu na Santa Casa, e nem foi para a Mooca. Seu pai tinha comprado um apartamento de estilo provençal no Sumaré. Era um apartamento espaçoso, grande, mas não tinha espaço para mim, que fiquei sozinho na Mooca com a italianada gritando. Começaram a construir o metrô da Paulista. Achei uma grande bobagem. Minha saúde já estava debilitada. Tossia sem parar, sentia dores. Em 1991 vim para aqui. E até hoje não sai. Dizem que fiquei dormindo quinze anos. Perguntei esses dias a Marialva se ela se recorda das minhas histórias e ela disse que não. Acho que nunca contei a ela. Entrou esses dias uma senhora com um sapato branco fazendo muito barulho. Reclamei e disse a ela que sapatos brancos deveriam ser usados com cautela, delicadeza. Ela olhou com desprezo, me aplicou uma injeção e eu dormi. Acordei com esse negocio no nariz, uns tubos maiores no braço e outros na barriga. Eu estava bem melhor, fazia dois anos que não usava isso, mas eles colocaram e pioraram minha saúde. Agora sinto um pouco de dor, não consigo abrir os olhos direito. Por isso falo de olho fechado. Vou tentar abrir mais uma vez, fiquem olhando para mim e me aplaudam. Vejo a moça dos sapatos brancos novamente, dessa vez, silenciosa, mas sempre com uma injeção nas mãos. Nem sinto mais quando me furam. Já foi? Estou com falta de ar... Estou tonto... Vejo um ponto bran...
Nesse momento fez silêncio no quarto. Lá fora, o vento fez com que os ipês roxos colorissem a calçada do hospital.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
A Traição Perfeita
E chorava como uma criança quando tem dor. As lágrimas caiam pelo rosto de uma forma sofrida. Não podia evitar tamanho sofrimento. Ao seu lado, Vivian não podia fazer nada. Parada, apenas olhava como alguém olha para um retrato. Renan também não fazia nada, mas ele nem olhava, apenas escutava com angústia o soluçar.
O motivo das lágrimas é explicado retornando à uma tarde quente e ensolarada de novembro. Era dia 18. Sentados à beira-mar tomando água de coco para se refrescarem, nenhuma palavra era pronunciada. O barulho do mar misturava-se ao barulho da agitada Ipanema. As meninas não passavam no doce balanço a caminho do mar. Passavam, mas num balanço nada doce. Pareciam carnes expostas desfilando seus biquínis. As que estavam na areia, lembravam carne-seca, esturricada ao sol acompanhada de muito sal. Algumas brilhavam, outras avermelhavam, mas todas aproveitavam a tarde ensolarada. Com chapéus, chinelos e roupa, sentados estava o casal.
Vivian era branquinha, descendência alemã. Odiava o calor. Morava no Rio de Janeiro desde que se casou com Victor, um rapaz descendente de portugueses, que acreditava ter uma linhagem real, já que tinha um dos sobrenomes de Dom. Pedro II – Alcântara.
Casaram-se há cinco meses. Ela terminara a faculdade de Direito em Coimbra, ele ainda cursava Medicina na Universidade Estadual. A universidade ocupava toda a semana dele com aulas, residência e palestras. Ela trabalhava de segunda à sexta, com direito às quartas livres. Seus casos eram pequenos, mas garantiam vitória. Seu escritório ficava no centro. Ela era conhecida em toda a cidade, não pela profissão, mas porque era da linhagem de um Condado alemão, antes mesmo do 1º Reich.
Nessa mesma tarde ensolarada e sem assunto, o celular tocou. Após um pouco mais de duas horas ao telefone, um encontro estava marcado. Victor não acreditava no que ouvia. Era um domingo, único dia que poderia aproveitar a esposa e ela tinha um encontro. Para não deixá-lo sozinho, o convidou. Ele aceitou prontamente. Em pouco menos de três horas estavam em um restaurante esperando um cliente promissor.
Com quinze minutos de atraso, à porta do local aparecia um rapaz alto, bem vestido, com um costume muito bem cortado à italiana, vestindo uma gravata de seda azul, sapatos engraxados impecavelmente e um sorriso no rosto. Era o cliente aguardado.
Após cumprimentos e alguns risos, Victor pode reparar no rapaz que estava agora sentado à sua mesa conversando com sua esposa. O rosto era liso, sem marcas ou manchas. A barba meio loira muito bem desenhada realçava o queixo e afinava o rosto que já era fino. Os lábios eram bem desenhados, preenchidos no tamanho exato e de tom rosado. Os olhos eram azuis e redondos, mas não grandes. Era um rosto simétrico, equilibrado.
O assunto era intrigante. Despertava a curiosidade. Como podia, sua esposa, lidar com tamanha barbaridade? Ficaram no restaurante até tarde da noite. Voltaram para a casa. No caminho da Lapa até o Leblon só planejavam o que fariam com o dinheiro que Vivan receberia pelos honorários. Chegaram ao apartamento em que moravam e dormiram. Semanas se passaram. Victor precisaria viajar aos Estados Unidos para realizar um curso de especialização e concluir a faculdade de medicina. Após todos os acertos, embarcou, sem previsão de volta, já que precisaria cumprir residência médica no Hemisfério Norte. Vivian ficou sozinha. Para facilitar as coisas enquanto o marido viajava, resolveu trabalhar em casa. Levou para o escritório do apartamento pilhas e pilhas de documentos e passou a receber alguns clientes em casa, entre eles o do restaurante do domingo de novembro. Em pouco tempo, tornaram-se amigos, passavam muito tempo juntos analisando o caso, e entre o expediente tomavam café e riam.
Renan era o nome do cliente e, agora, amigo. Ele já estava tão acostumado com Vivian que não era raro ele aparecer trajando roupas esportivas, de chinelos. Ela estava carente, o marido partira há 4 meses. Certo dia, Renan apareceu de repente. Ela o mandou subir. Quando abriu a porta, uma surpresa: ele estava apenas de sunga, segurando uma toalha de banho nas mãos, usando um chinelo branco, com boné e óculos escuro. Ele estava a convidando para um banho de mar. Ela recusou, alegando ter muito trabalho e que estava com saudades do esposo. Ele entendeu perfeitamente e foi embora.
Nesse dia, Vivian pode reparar no Renan que ainda não conhecia. Por baixo de roupas esportivas e sociais como aparecera outrora estava um Renan que vinha dos sonhos de qualquer garota adolescente. Ela vira um corpo escultural, com tórax bem definido, barriga malhada e pernas torneadas. Aquele corpo poderia levar qualquer mulher ao delírio, até mesmo ela, que era casada com um estudante de medicina sem tempo para malhar e não tinha um corpo desenhado como o de Renan.
Outras visitas inesperadas aconteceram, até que uma foi fatídica. Vestido, porém, Renan fez uma proposta indecente. Queria que Vivan participasse de algo ilegal. Vivian hesitou, mas aceitou. Eram dois infratores.
Após alguns dias repletos de ensaios e planos, foram para a concretização.
Combinaram de se encontrar na Lagoa, às 21 horas. Era um bom horário para quem precisava fazer tudo escondido. Nesse dia não fez calor na capital fluminense. Vivian foi apanhada no local combinado e partiram rumo à região dos Lagos. Na calada da noite, concretizariam o que planejaram. Tudo ocorria de maneira perfeita. Ruas vazias, um portão entreaberto e uma cópia da chave da porta dos fundos no esconderijo. Na vizinhança não havia cachorros. Pouco ou quase nenhum barulho era produzido. Entraram na casa e não tiveram nenhuma surpresa. Todas as salas do térreo estavam vazias, a cozinha e o lavabo também. No alto da escada já podiam ver todas as luzes apagadas. O quarto escolhido era o último do corredor. Abriram a porta com cuidado e executaram o serviço. Almofadas abafaram os gritos. O punhal foi certeiro, bem no coração. Saíram com cautela da casa e voltaram para o Rio. Chegaram quase no horário do almoço. Dirigiram-se à uma cantina italiana e ao som de Tarantela e regado com muito vinho se deliciaram. Naquele dia o vinho não era tinto.
Vivian voltou para o apartamento no Leblon, ligou para o marido, falou que sentia saudades e que o amava. Tomou um banho que quase foi interrompido pelo interfone. Era um detetive de polícia. Em pouco menos de duas horas de interrogatório ela estava na delegacia de polícia, frente a frente com Renan, bem vestido, com um costume francês, sapatos feito à mão e uma bela gravata de cetim. O sorriso continuava no rosto como o sorriso do primeiro encontro. Os cabelos bem penteados, a barba aparada, mostrando uma elegância incomum. Fizeram exames juntos. Dessa vez, Vivan viu muito mais do que tinha visto no dia do primeiro convite para um banho de mar. Dessa vez não se deliciou com o que viu. O corpo continuava atraente e bonito, mas as circunstâncias a impediam tal deleite. Renan não parava de olhar para ela, que permaneceu encabulada durante todo o exame. Não estava encabulada com o que ocorria na sala, mas pelo que fizera na noite anterior.
Assim que soube da notícia, Victor retornou ao Brasil. Pensava em meios de salvar a mulher que amava. Era tarde. Na visita, chorou como uma criança. Não porque sua esposa estava presa, mas porque ela estava viva. Casara com a assassina de sua própria mãe. Não chegou a tempo de acompanhar o funeral, não pode se despedir de sua mãe. A única coisa que fazia era chorar, assistido por uma mulher de olhar frio. Para o homem, apenas fazia uma música. Angustiante e dolorida. O arrependimento tomava conta de um corpo desejado.
O motivo das lágrimas é explicado retornando à uma tarde quente e ensolarada de novembro. Era dia 18. Sentados à beira-mar tomando água de coco para se refrescarem, nenhuma palavra era pronunciada. O barulho do mar misturava-se ao barulho da agitada Ipanema. As meninas não passavam no doce balanço a caminho do mar. Passavam, mas num balanço nada doce. Pareciam carnes expostas desfilando seus biquínis. As que estavam na areia, lembravam carne-seca, esturricada ao sol acompanhada de muito sal. Algumas brilhavam, outras avermelhavam, mas todas aproveitavam a tarde ensolarada. Com chapéus, chinelos e roupa, sentados estava o casal.
Vivian era branquinha, descendência alemã. Odiava o calor. Morava no Rio de Janeiro desde que se casou com Victor, um rapaz descendente de portugueses, que acreditava ter uma linhagem real, já que tinha um dos sobrenomes de Dom. Pedro II – Alcântara.
Casaram-se há cinco meses. Ela terminara a faculdade de Direito em Coimbra, ele ainda cursava Medicina na Universidade Estadual. A universidade ocupava toda a semana dele com aulas, residência e palestras. Ela trabalhava de segunda à sexta, com direito às quartas livres. Seus casos eram pequenos, mas garantiam vitória. Seu escritório ficava no centro. Ela era conhecida em toda a cidade, não pela profissão, mas porque era da linhagem de um Condado alemão, antes mesmo do 1º Reich.
Nessa mesma tarde ensolarada e sem assunto, o celular tocou. Após um pouco mais de duas horas ao telefone, um encontro estava marcado. Victor não acreditava no que ouvia. Era um domingo, único dia que poderia aproveitar a esposa e ela tinha um encontro. Para não deixá-lo sozinho, o convidou. Ele aceitou prontamente. Em pouco menos de três horas estavam em um restaurante esperando um cliente promissor.
Com quinze minutos de atraso, à porta do local aparecia um rapaz alto, bem vestido, com um costume muito bem cortado à italiana, vestindo uma gravata de seda azul, sapatos engraxados impecavelmente e um sorriso no rosto. Era o cliente aguardado.
Após cumprimentos e alguns risos, Victor pode reparar no rapaz que estava agora sentado à sua mesa conversando com sua esposa. O rosto era liso, sem marcas ou manchas. A barba meio loira muito bem desenhada realçava o queixo e afinava o rosto que já era fino. Os lábios eram bem desenhados, preenchidos no tamanho exato e de tom rosado. Os olhos eram azuis e redondos, mas não grandes. Era um rosto simétrico, equilibrado.
O assunto era intrigante. Despertava a curiosidade. Como podia, sua esposa, lidar com tamanha barbaridade? Ficaram no restaurante até tarde da noite. Voltaram para a casa. No caminho da Lapa até o Leblon só planejavam o que fariam com o dinheiro que Vivan receberia pelos honorários. Chegaram ao apartamento em que moravam e dormiram. Semanas se passaram. Victor precisaria viajar aos Estados Unidos para realizar um curso de especialização e concluir a faculdade de medicina. Após todos os acertos, embarcou, sem previsão de volta, já que precisaria cumprir residência médica no Hemisfério Norte. Vivian ficou sozinha. Para facilitar as coisas enquanto o marido viajava, resolveu trabalhar em casa. Levou para o escritório do apartamento pilhas e pilhas de documentos e passou a receber alguns clientes em casa, entre eles o do restaurante do domingo de novembro. Em pouco tempo, tornaram-se amigos, passavam muito tempo juntos analisando o caso, e entre o expediente tomavam café e riam.
Renan era o nome do cliente e, agora, amigo. Ele já estava tão acostumado com Vivian que não era raro ele aparecer trajando roupas esportivas, de chinelos. Ela estava carente, o marido partira há 4 meses. Certo dia, Renan apareceu de repente. Ela o mandou subir. Quando abriu a porta, uma surpresa: ele estava apenas de sunga, segurando uma toalha de banho nas mãos, usando um chinelo branco, com boné e óculos escuro. Ele estava a convidando para um banho de mar. Ela recusou, alegando ter muito trabalho e que estava com saudades do esposo. Ele entendeu perfeitamente e foi embora.
Nesse dia, Vivian pode reparar no Renan que ainda não conhecia. Por baixo de roupas esportivas e sociais como aparecera outrora estava um Renan que vinha dos sonhos de qualquer garota adolescente. Ela vira um corpo escultural, com tórax bem definido, barriga malhada e pernas torneadas. Aquele corpo poderia levar qualquer mulher ao delírio, até mesmo ela, que era casada com um estudante de medicina sem tempo para malhar e não tinha um corpo desenhado como o de Renan.
Outras visitas inesperadas aconteceram, até que uma foi fatídica. Vestido, porém, Renan fez uma proposta indecente. Queria que Vivan participasse de algo ilegal. Vivian hesitou, mas aceitou. Eram dois infratores.
Após alguns dias repletos de ensaios e planos, foram para a concretização.
Combinaram de se encontrar na Lagoa, às 21 horas. Era um bom horário para quem precisava fazer tudo escondido. Nesse dia não fez calor na capital fluminense. Vivian foi apanhada no local combinado e partiram rumo à região dos Lagos. Na calada da noite, concretizariam o que planejaram. Tudo ocorria de maneira perfeita. Ruas vazias, um portão entreaberto e uma cópia da chave da porta dos fundos no esconderijo. Na vizinhança não havia cachorros. Pouco ou quase nenhum barulho era produzido. Entraram na casa e não tiveram nenhuma surpresa. Todas as salas do térreo estavam vazias, a cozinha e o lavabo também. No alto da escada já podiam ver todas as luzes apagadas. O quarto escolhido era o último do corredor. Abriram a porta com cuidado e executaram o serviço. Almofadas abafaram os gritos. O punhal foi certeiro, bem no coração. Saíram com cautela da casa e voltaram para o Rio. Chegaram quase no horário do almoço. Dirigiram-se à uma cantina italiana e ao som de Tarantela e regado com muito vinho se deliciaram. Naquele dia o vinho não era tinto.
Vivian voltou para o apartamento no Leblon, ligou para o marido, falou que sentia saudades e que o amava. Tomou um banho que quase foi interrompido pelo interfone. Era um detetive de polícia. Em pouco menos de duas horas de interrogatório ela estava na delegacia de polícia, frente a frente com Renan, bem vestido, com um costume francês, sapatos feito à mão e uma bela gravata de cetim. O sorriso continuava no rosto como o sorriso do primeiro encontro. Os cabelos bem penteados, a barba aparada, mostrando uma elegância incomum. Fizeram exames juntos. Dessa vez, Vivan viu muito mais do que tinha visto no dia do primeiro convite para um banho de mar. Dessa vez não se deliciou com o que viu. O corpo continuava atraente e bonito, mas as circunstâncias a impediam tal deleite. Renan não parava de olhar para ela, que permaneceu encabulada durante todo o exame. Não estava encabulada com o que ocorria na sala, mas pelo que fizera na noite anterior.
Assim que soube da notícia, Victor retornou ao Brasil. Pensava em meios de salvar a mulher que amava. Era tarde. Na visita, chorou como uma criança. Não porque sua esposa estava presa, mas porque ela estava viva. Casara com a assassina de sua própria mãe. Não chegou a tempo de acompanhar o funeral, não pode se despedir de sua mãe. A única coisa que fazia era chorar, assistido por uma mulher de olhar frio. Para o homem, apenas fazia uma música. Angustiante e dolorida. O arrependimento tomava conta de um corpo desejado.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A Capital
Quando o telefone tocou dei um pulo de alegria. Esperava dias por uma ligação. Desde que fora à Dinamarca há cinco anos não ligou para mim. Ao mesmo tempo em que estava feliz, sentia medo. Será que o amor ainda resistia ao tempo? E se existisse algum homem em sua vida? Não tinha as respostas para as minhas perguntas.
Corri e atendi ao telefone. Em segundos lembrei-me de tudo o que fizermos juntos. Quantas lágrimas derrubei, quantos risos, passeios e carinhos.
Lembrei-me de um acontecimento importante. Foi quando ela recebera a resposta de seu trabalho. Esperávamos juntos pela carta. O carteiro bateu à porta, nós corremos e até abraçamos o carteiro, que ficou ali, parado, sem nada entender. Resolvemos que leríamos no jardim, já que lá foi o lugar da decisão de tentar um novo emprego. Sentamos no banco de ferro de quase cem anos e abrimos a carta. Trocávamos beijos. Nossos olhos brilhavam de alegria. Nossa certeza de que moraríamos na capital era tamanha, que até já tínhamos comprado um belo apartamento. Abrimos a carta e vimos que ela fora aceita na empresa. Rimos, comemoramos, ligamos para os nossos pais, para os nossos amigos, marcamos uma reunião de família, contratamos garçons, decoramos nosso jardim, preparamos alguns pratos e recebemos nossos convidados. Era a nossa despedida da pacata cidade do interior. Iríamos para a Capital.
Na manhã seguinte nossas malas estavam prontas, os móveis embalados e esperávamos pelo caminhão de mudanças. Despedi-me dos meus alunos, dos companheiros de trabalho, do material dourado. Quando percebi, já sentia o ar um pouco mais carregado. Respiramos fundo, estávamos na capital!
O ar seco, ruas lotadas e pavimentadas, edifícios, lojas, construções antigas ao lado de novas. Enquanto os funcionários arrumavam os nossos móveis no apartamento, dirigimo-nos até a empresa de minha esposa. Fomos recebidos como reis. O diretor da companhia nos recebeu em sua sala, e em meio a risos e cumprimentos, pediu nosso passaporte. Passaporte? Éramos brasileiros, não precisávamos desse documento. Desculpamo-nos e falamos que não estávamos com o documento solicitado. Desapontado, o diretor olhou para a minha esposa e perguntou se tínhamos lido atentamente a correspondência. Precipitei-me e respondi negativamente. Ele rapidamente no explicou que minha esposa fora aceita, mas para trabalhar na Europa. Ele nos mandou á Polícia Federal. Nós fomos.
No caminho, só pensávamos que, com o nosso novo apartamento, sem podermos vender a casa do interior, não teríamos dinheiro para pagar a minha passagem. Antes mesmo de chegarmos ao nosso destino, tomei uma decisão. Ela iria antes, e depois de um tempo juntando dinheiro, eu embarcaria. Em menos de dois meses lá eu estava, no Aeroporto Internacional Salgado Filho chorando ao ver minha esposa entrar na aeronave com destino à Dinamarca.
Para me manter sozinho na capital, voltei à sala de aula. Consegui duas turmas do ensino fundamental, e os ensinava matemática. Com pouco mais de um ano da data da partida, eu já era diretor. Minha vida na capital caminhava muito bem. Depois de três anos, sem contato com minha esposa, já não lembrava mais de sua voz, do seu cheiro, do seu toque.
Hoje, depois de cinco anos ela resolveu me ligar. Durante todo esse tempo fiquei sozinho, entre Porto Alegre e Uruguaiana, mas e ela, ficou sozinha? Ouvi um “alô”. Meus olhos encheram de lágrimas. “Tem como me buscar no Salgado Filho? Resolvi fazer uma surpresa. Fui transferida para o Brasil e passarei o resto da minha vida ao seu lado.”
Não pensei duas vezes. “Em menos de trinta minutos estarei ai.”
Desliguei o telefone.
Corri e atendi ao telefone. Em segundos lembrei-me de tudo o que fizermos juntos. Quantas lágrimas derrubei, quantos risos, passeios e carinhos.
Lembrei-me de um acontecimento importante. Foi quando ela recebera a resposta de seu trabalho. Esperávamos juntos pela carta. O carteiro bateu à porta, nós corremos e até abraçamos o carteiro, que ficou ali, parado, sem nada entender. Resolvemos que leríamos no jardim, já que lá foi o lugar da decisão de tentar um novo emprego. Sentamos no banco de ferro de quase cem anos e abrimos a carta. Trocávamos beijos. Nossos olhos brilhavam de alegria. Nossa certeza de que moraríamos na capital era tamanha, que até já tínhamos comprado um belo apartamento. Abrimos a carta e vimos que ela fora aceita na empresa. Rimos, comemoramos, ligamos para os nossos pais, para os nossos amigos, marcamos uma reunião de família, contratamos garçons, decoramos nosso jardim, preparamos alguns pratos e recebemos nossos convidados. Era a nossa despedida da pacata cidade do interior. Iríamos para a Capital.
Na manhã seguinte nossas malas estavam prontas, os móveis embalados e esperávamos pelo caminhão de mudanças. Despedi-me dos meus alunos, dos companheiros de trabalho, do material dourado. Quando percebi, já sentia o ar um pouco mais carregado. Respiramos fundo, estávamos na capital!
O ar seco, ruas lotadas e pavimentadas, edifícios, lojas, construções antigas ao lado de novas. Enquanto os funcionários arrumavam os nossos móveis no apartamento, dirigimo-nos até a empresa de minha esposa. Fomos recebidos como reis. O diretor da companhia nos recebeu em sua sala, e em meio a risos e cumprimentos, pediu nosso passaporte. Passaporte? Éramos brasileiros, não precisávamos desse documento. Desculpamo-nos e falamos que não estávamos com o documento solicitado. Desapontado, o diretor olhou para a minha esposa e perguntou se tínhamos lido atentamente a correspondência. Precipitei-me e respondi negativamente. Ele rapidamente no explicou que minha esposa fora aceita, mas para trabalhar na Europa. Ele nos mandou á Polícia Federal. Nós fomos.
No caminho, só pensávamos que, com o nosso novo apartamento, sem podermos vender a casa do interior, não teríamos dinheiro para pagar a minha passagem. Antes mesmo de chegarmos ao nosso destino, tomei uma decisão. Ela iria antes, e depois de um tempo juntando dinheiro, eu embarcaria. Em menos de dois meses lá eu estava, no Aeroporto Internacional Salgado Filho chorando ao ver minha esposa entrar na aeronave com destino à Dinamarca.
Para me manter sozinho na capital, voltei à sala de aula. Consegui duas turmas do ensino fundamental, e os ensinava matemática. Com pouco mais de um ano da data da partida, eu já era diretor. Minha vida na capital caminhava muito bem. Depois de três anos, sem contato com minha esposa, já não lembrava mais de sua voz, do seu cheiro, do seu toque.
Hoje, depois de cinco anos ela resolveu me ligar. Durante todo esse tempo fiquei sozinho, entre Porto Alegre e Uruguaiana, mas e ela, ficou sozinha? Ouvi um “alô”. Meus olhos encheram de lágrimas. “Tem como me buscar no Salgado Filho? Resolvi fazer uma surpresa. Fui transferida para o Brasil e passarei o resto da minha vida ao seu lado.”
Não pensei duas vezes. “Em menos de trinta minutos estarei ai.”
Desliguei o telefone.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Flor da vida inteira
E quando viu, o relógio estava parado. Não, não era só o relógio. Sentia que o mundo não girava mais, as pessoas não envelheciam e nem as flores floresciam. O Sol, parado na posição indicativa das nove horas deixava o clima agradável. A brisa que vinha do vale era fresca. O barulho da cachoeira era incessante, mas tranqüilizava até o mais agitado ser humano. Os pássaros alimentavam seus filhotes no ninho. Augusto observava tudo atentamente. Os cabelos louros e lisos movimentavam-se com a brisa. Algo no chão se moveu, e chamou a atenção do belo rapaz. Era um pequeno lírio branco.
-Como se move? – questionou o rapaz.
Olhando fixamente para a flor, não entendia como aquilo ocorria.
-Tudo está parado, porque se move? – Voltou a questionar.
Uma voz doce e suave respondeu:
- Movimento-me com as batidas de seu coração. Se ele bate de forma acelerada sou capaz de crescer, ganhar novas pétalas, se ele bate lentamente, não cresço, fico da forma como estou até faltarem-me forças e eu começar a murchar.
-Não quero me responsabilizar por seu crescimento – retrucou o garoto –olhe ao seu redor. Sou o responsável por tudo isso que acontece agora?
A voz não tornou a responder. A flor começava a murchar. Augusto suava frio, sem entender o que era aquilo de verdade. Seria um sonho? Poderia ser. Nada era real, tudo era fantasia. Custava-lhe muito entender.
Resolveu andar. Após umas cinco horas, conforme seus cálculos, já que tudo estava parado, sentiu-se cansado. Lembrou-se da cachoeira, e voltou para beber um pouco de água e descansar. Chegou a encontrar a montanha e o leito do rio. Mas não havia cachoeira, não havia água. Tudo estava seco. O verde da grama viçosa dava lugar ao marrom. O colorido de todas as flores estava desaparecendo. Apenas o lírio branco insistia em manter-se vivo, embora murcho. Cansado e sem água para refrescar-se, dormiu sob a relva seca. Sonhou com uma moça bonita. Não a conhecia, disso ele tivera certeza após acordar e lembrar-se do sonho. Por um instante sentiu uma fisgada no peito.
Passou um bom tempo pensando na bela moça. Era loura, com o jeito de menina, encantadora, sim, encantadora era a melhor adjetivação. Sua beleza ultrapassava a caracterização física. Ia além do que os olhos podiam ver. Impaciente, não parava mais de pensar nela.
Voltou a dormir, e quando acordou notou a presença feminina. A moça dos sonhos aparecera por lá, onde até o Sol estava paralisado. Pessoalmente era muito mais encantadora. Incrédulo com o que via, apenas admirava. Admirava o que para ele era irreal. Observava cada detalhe. Os olhos azuis, os belos cabelos dourados, o corpo muito bem contornado. A ingenuidade o cativava.
-Admira-me mais. Também estou o admirando. – disse uma voz doce e suave.
-Tal voz é inconfundível. Não olho para você pequeno lírio. Olho para a moça dos meus sonhos. Você é lindo, mas não o admiro agora. – respondeu Augusto.
Silêncio.
O silêncio era tudo o que conseguiam fazer. A moça deixava-se admirar, e o lírio conformava-se com a ausência de Augusto naquele momento. Aos poucos uma água fresca passava pelos pés do menino. O barulho da cachoeira voltava a quebrar o silêncio. Imediatamente Augusto olhou para o chão. Uma linda flor branca voltava a viver, dessa vez muito mais bonita. Ao redor dela, pequenos botões de rosa coloridos nasciam. O cenário voltava a ter vida e uma beleza inconfundível. Tão logo, o Sol começou a mover-se. Augusto notou pelo movimento que sua sombra agora fazia. A bela moça apenas sorria.
-És como o lírio. –ele disse.
Resolveu abraçá-la. Hesitou um pouco antes de agir, mas o fez. Abraçou-a como se a abraçasse pela última vez. Ao seu ouvido, a vos doce falou:
-Terá toda a sua vida para me abraçar. Só não esqueça de regar o lírio, pois com ele eu vivo.
-Como se move? – questionou o rapaz.
Olhando fixamente para a flor, não entendia como aquilo ocorria.
-Tudo está parado, porque se move? – Voltou a questionar.
Uma voz doce e suave respondeu:
- Movimento-me com as batidas de seu coração. Se ele bate de forma acelerada sou capaz de crescer, ganhar novas pétalas, se ele bate lentamente, não cresço, fico da forma como estou até faltarem-me forças e eu começar a murchar.
-Não quero me responsabilizar por seu crescimento – retrucou o garoto –olhe ao seu redor. Sou o responsável por tudo isso que acontece agora?
A voz não tornou a responder. A flor começava a murchar. Augusto suava frio, sem entender o que era aquilo de verdade. Seria um sonho? Poderia ser. Nada era real, tudo era fantasia. Custava-lhe muito entender.
Resolveu andar. Após umas cinco horas, conforme seus cálculos, já que tudo estava parado, sentiu-se cansado. Lembrou-se da cachoeira, e voltou para beber um pouco de água e descansar. Chegou a encontrar a montanha e o leito do rio. Mas não havia cachoeira, não havia água. Tudo estava seco. O verde da grama viçosa dava lugar ao marrom. O colorido de todas as flores estava desaparecendo. Apenas o lírio branco insistia em manter-se vivo, embora murcho. Cansado e sem água para refrescar-se, dormiu sob a relva seca. Sonhou com uma moça bonita. Não a conhecia, disso ele tivera certeza após acordar e lembrar-se do sonho. Por um instante sentiu uma fisgada no peito.
Passou um bom tempo pensando na bela moça. Era loura, com o jeito de menina, encantadora, sim, encantadora era a melhor adjetivação. Sua beleza ultrapassava a caracterização física. Ia além do que os olhos podiam ver. Impaciente, não parava mais de pensar nela.
Voltou a dormir, e quando acordou notou a presença feminina. A moça dos sonhos aparecera por lá, onde até o Sol estava paralisado. Pessoalmente era muito mais encantadora. Incrédulo com o que via, apenas admirava. Admirava o que para ele era irreal. Observava cada detalhe. Os olhos azuis, os belos cabelos dourados, o corpo muito bem contornado. A ingenuidade o cativava.
-Admira-me mais. Também estou o admirando. – disse uma voz doce e suave.
-Tal voz é inconfundível. Não olho para você pequeno lírio. Olho para a moça dos meus sonhos. Você é lindo, mas não o admiro agora. – respondeu Augusto.
Silêncio.
O silêncio era tudo o que conseguiam fazer. A moça deixava-se admirar, e o lírio conformava-se com a ausência de Augusto naquele momento. Aos poucos uma água fresca passava pelos pés do menino. O barulho da cachoeira voltava a quebrar o silêncio. Imediatamente Augusto olhou para o chão. Uma linda flor branca voltava a viver, dessa vez muito mais bonita. Ao redor dela, pequenos botões de rosa coloridos nasciam. O cenário voltava a ter vida e uma beleza inconfundível. Tão logo, o Sol começou a mover-se. Augusto notou pelo movimento que sua sombra agora fazia. A bela moça apenas sorria.
-És como o lírio. –ele disse.
Resolveu abraçá-la. Hesitou um pouco antes de agir, mas o fez. Abraçou-a como se a abraçasse pela última vez. Ao seu ouvido, a vos doce falou:
-Terá toda a sua vida para me abraçar. Só não esqueça de regar o lírio, pois com ele eu vivo.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
O romance da Vuitton
Eu não era tudo o que ela tinha na vida. Havia quatro filhos, dois ex-maridos, um cachorro e alguns peixinhos. Sua vida era ocupada pelos serviços domésticos, atividades dos filhos e seu emprego. Trabalhava em uma pequena redação. Era um jornal de pequena circulação, nada além de quatro ou cinco municípios sem importância.
Sempre bem vestida, não dispensava um bom sapato e sua bolsa Louis Vuitton. Poderia não estar com roupas caras, mas sua bolsa era sempre uma Vuitton. Não ostentava luxo, não tinha uma mansão e nem um bom carro importado na garagem. Para o emprego, deixava seu carro usado na garagem e usava um ônibus municipal. O carro só servia para a locomoção dos filhos ou alguma emergência. Combustível era caro e a manutenção também, além dos gastos com seguradora de autos, que cobrava um absurdo por uma lata-velha.
Na redação, cuidava de tudo. Era a editora, a redatora, a repórter e a fotógrafa. As vezes, era até mesmo a recepcionista e a secretária. Não tomava café, apenas chá e sempre sem açúcar. Seu estômago não tolerava leite. Só de ouvir essa palavra, já podia sentir as dores. Era uma excelente profissional, embora alguns não gostassem dela por causa de suas manias. Uma das mais irritantes eram as repetições. Tinha dias em que contava umas oito vezes a mesma historia. Quando isso acontecia, a melhor saída era ignorá-la. Contudo, como já dito anteriormente, era uma boa profissional.
Um de seus dois ex-maridos, o primeiro, ainda era ciumento. Não gostava quando ia buscar o filho no final de semana e a visse vestindo saias. Eram separados há 17 anos, mas parecia que ele ainda gostava dela. Seus olhos brilhavam sempre que a via e seu coração parecia sair pela boca. Ela sempre discreta, fingia não ver tais reações.
Seu segundo ex-marido era mais assanhado. Cada vez que ia buscar os outros três filhos aparecia com uma dama diferente. Esse fora o motivo da separação. Os olhos dele não brilhavam para ela, assim como nunca brilhara antes. Após 5 anos de separação, ainda não entendia como fora, um dia, apaixonar-se por um homem como ele.
Entrei na sua vida ao acaso, se é que casualidade existe. Acontece que um dia, ela, voltando da redação indo em direção ao ponto de ônibus, falando ao celular, não percebeu que vinha em minha direção. Eu andava distraído, cheio de livros na mão, uma lata de refrigerante, falando ao celular também e olhando para um rabo-de-saia qualquer que passava. Na frente de uma pequena joalheria com ares provincianos, trombamos. Meus livros espalharam-se todos pelo chão, a lata de refrigerante voou para longe. Ela se abaixou e começou a me ajudar a recolher os livros. Recolhemos todos, todos menos um, que ficou pela calçada. Naquele instante em que trombamos algo de profundo nos tocou. Era como se já nos conhecêssemos.
Convidei para um café na lanchonete da esquina. Sabia que lá tinha o melhor cappuccino de toda a cidade. Tomamos um café demorado, quase duas horas. Conversamos, demos risada e quase na hora de sair, trocamos os telefones.
Ela pegou o 158, eu o 003. Morávamos longe um do outro. Ela tinha quase 40, eu 20.
Todos os dias, nos mesmo horário, tomávamos o nosso demorado café. E tudo ficou assim. O vazio do livro foi preenchido pelo riso de uma mulher bem vestida de bolsa Vuitton, que certamente carregava um romance depois daquela tarde.
Sempre bem vestida, não dispensava um bom sapato e sua bolsa Louis Vuitton. Poderia não estar com roupas caras, mas sua bolsa era sempre uma Vuitton. Não ostentava luxo, não tinha uma mansão e nem um bom carro importado na garagem. Para o emprego, deixava seu carro usado na garagem e usava um ônibus municipal. O carro só servia para a locomoção dos filhos ou alguma emergência. Combustível era caro e a manutenção também, além dos gastos com seguradora de autos, que cobrava um absurdo por uma lata-velha.
Na redação, cuidava de tudo. Era a editora, a redatora, a repórter e a fotógrafa. As vezes, era até mesmo a recepcionista e a secretária. Não tomava café, apenas chá e sempre sem açúcar. Seu estômago não tolerava leite. Só de ouvir essa palavra, já podia sentir as dores. Era uma excelente profissional, embora alguns não gostassem dela por causa de suas manias. Uma das mais irritantes eram as repetições. Tinha dias em que contava umas oito vezes a mesma historia. Quando isso acontecia, a melhor saída era ignorá-la. Contudo, como já dito anteriormente, era uma boa profissional.
Um de seus dois ex-maridos, o primeiro, ainda era ciumento. Não gostava quando ia buscar o filho no final de semana e a visse vestindo saias. Eram separados há 17 anos, mas parecia que ele ainda gostava dela. Seus olhos brilhavam sempre que a via e seu coração parecia sair pela boca. Ela sempre discreta, fingia não ver tais reações.
Seu segundo ex-marido era mais assanhado. Cada vez que ia buscar os outros três filhos aparecia com uma dama diferente. Esse fora o motivo da separação. Os olhos dele não brilhavam para ela, assim como nunca brilhara antes. Após 5 anos de separação, ainda não entendia como fora, um dia, apaixonar-se por um homem como ele.
Entrei na sua vida ao acaso, se é que casualidade existe. Acontece que um dia, ela, voltando da redação indo em direção ao ponto de ônibus, falando ao celular, não percebeu que vinha em minha direção. Eu andava distraído, cheio de livros na mão, uma lata de refrigerante, falando ao celular também e olhando para um rabo-de-saia qualquer que passava. Na frente de uma pequena joalheria com ares provincianos, trombamos. Meus livros espalharam-se todos pelo chão, a lata de refrigerante voou para longe. Ela se abaixou e começou a me ajudar a recolher os livros. Recolhemos todos, todos menos um, que ficou pela calçada. Naquele instante em que trombamos algo de profundo nos tocou. Era como se já nos conhecêssemos.
Convidei para um café na lanchonete da esquina. Sabia que lá tinha o melhor cappuccino de toda a cidade. Tomamos um café demorado, quase duas horas. Conversamos, demos risada e quase na hora de sair, trocamos os telefones.
Ela pegou o 158, eu o 003. Morávamos longe um do outro. Ela tinha quase 40, eu 20.
Todos os dias, nos mesmo horário, tomávamos o nosso demorado café. E tudo ficou assim. O vazio do livro foi preenchido pelo riso de uma mulher bem vestida de bolsa Vuitton, que certamente carregava um romance depois daquela tarde.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Entre amor, sangue e fogo
À beira da lareira com um livro na mão, esperava o silêncio para que começasse a ler. As crianças, pouco a pouco, ocupavam suas camas quentinhas. Em poucos instantes, só ouvia o estalar das lenhas queimando e aquecendo a sala acarpetada e com poucos móveis. Do lado de fora da janela, o vento soprava fortemente. A sala, tomada pelo calor, tornava-se um ambiente propício para um chocolate quente. A poltrona solitária, alguns papéis sobre a mesa no canto, o sofá macio bagunçado, um ou dois abajures acesos, a vela quase apagando, as flores já murchas. Na parede, dois cartazes do Louvre. Sob a janela, uma cortina pesada, antiga e empoeirada. À mesa ao centro, uma caixa dourada muito bem conservada guardava as cinzas de algum familiar. Alguns livros de arte, uma estatueta de bronze, e duas garrafas de perfume de cristal terminavam a composição ao centro da sala. O busto de mármore sob um pedestal confeccionado com o mesmo material desejava as boas-vindas. Já passava das 23 horas.
Nessa altura, com um o silêncio necessário a leitura foi iniciada. A página era a 256, segundo parágrafo, capitulo CIX. Como que sussurrando, com sua voz grave leu:
“-Agora, se considerares que ele foi o único, que nenhum outro veio certo nem incerto...” – E continuou a leitura de forma silenciosa.
As palavras foram suficientes para dar-lhe ânimo. Colocou o livro sobre o chão, levantou-se, atravessou a sala e subiu a escada de marfim. No corredor dos quartos, as portas estavam fechadas. O seu destino era certo. Não havia dúvidas e nem motivos para que elas existissem. Ouviu um barulho e parou assustado. Constatou que era lá fora. Continuou a caminhar. À frente da última porta do corredor, parou. Olhou para si mesmo, olhou para o alto como quem faz uma oração. Respirou demoradamente. Levou lentamente a mão à maçaneta. Girou. A porta rangeu ao abrir. Dentro do quarto, tudo escuro. Caminhou lentamente à cama. Acendeu uma vela que estava ao lado da cama, junto à bíblia e um copo com água. Tinha agora a certeza de que a mulher que repousava no leito era religiosa. Antes de acordá-la, pensou por alguns minutos. Lembrou do que ocorrera, sentiu ciúmes, sentiu raiva. Teve vontade de sair daquele quarto sem fazer nada. Sua cabeça girava. Quantas noites passaram juntos? Tentava lembrar, talvez algumas centenas. Sua respiração ofegava. A mulher, sentia-se incomodada com a luz da vela, e virava-se bastante em sua cama. Enquanto não acordava a mulher, pegou a vela e examinou o quarto. Manchas de sangue estavam espalhadas pelo chão e pelo lençol. Algumas bacias com água modificavam a decoração provençal do quarto. A cortina que nunca ficava fechada, naquela noite fechara-se. O ar frio do quarto o contagiava. Ouviu um choro, parecia vir de outro quarto. Passava das duas da manhã. Criou coragem. Foi à cabeceira e despejou as palavras, regadas com lágrimas. Eram palavras de desculpas misturadas com palavras de amor. Soluçava. Ao encostar seus lábios na testa da mulher notou que estava fria. O grito foi inevitável. Com cuidado, levou o lençol até cobrir todo o corpo. Antes que cobrisse tudo, emocionado, mais uma vez pediu desculpas, e prometeu cuidar do irmão que nascera horas antes de todos se recolherem.
Nessa altura, com um o silêncio necessário a leitura foi iniciada. A página era a 256, segundo parágrafo, capitulo CIX. Como que sussurrando, com sua voz grave leu:
“-Agora, se considerares que ele foi o único, que nenhum outro veio certo nem incerto...” – E continuou a leitura de forma silenciosa.
As palavras foram suficientes para dar-lhe ânimo. Colocou o livro sobre o chão, levantou-se, atravessou a sala e subiu a escada de marfim. No corredor dos quartos, as portas estavam fechadas. O seu destino era certo. Não havia dúvidas e nem motivos para que elas existissem. Ouviu um barulho e parou assustado. Constatou que era lá fora. Continuou a caminhar. À frente da última porta do corredor, parou. Olhou para si mesmo, olhou para o alto como quem faz uma oração. Respirou demoradamente. Levou lentamente a mão à maçaneta. Girou. A porta rangeu ao abrir. Dentro do quarto, tudo escuro. Caminhou lentamente à cama. Acendeu uma vela que estava ao lado da cama, junto à bíblia e um copo com água. Tinha agora a certeza de que a mulher que repousava no leito era religiosa. Antes de acordá-la, pensou por alguns minutos. Lembrou do que ocorrera, sentiu ciúmes, sentiu raiva. Teve vontade de sair daquele quarto sem fazer nada. Sua cabeça girava. Quantas noites passaram juntos? Tentava lembrar, talvez algumas centenas. Sua respiração ofegava. A mulher, sentia-se incomodada com a luz da vela, e virava-se bastante em sua cama. Enquanto não acordava a mulher, pegou a vela e examinou o quarto. Manchas de sangue estavam espalhadas pelo chão e pelo lençol. Algumas bacias com água modificavam a decoração provençal do quarto. A cortina que nunca ficava fechada, naquela noite fechara-se. O ar frio do quarto o contagiava. Ouviu um choro, parecia vir de outro quarto. Passava das duas da manhã. Criou coragem. Foi à cabeceira e despejou as palavras, regadas com lágrimas. Eram palavras de desculpas misturadas com palavras de amor. Soluçava. Ao encostar seus lábios na testa da mulher notou que estava fria. O grito foi inevitável. Com cuidado, levou o lençol até cobrir todo o corpo. Antes que cobrisse tudo, emocionado, mais uma vez pediu desculpas, e prometeu cuidar do irmão que nascera horas antes de todos se recolherem.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Por acaso
Tornei-me escritor por ironia. Era criança quando queria trabalhar de verdade, ser médico ou dentista. Quando tornei-me adolescente, resolvi fazer arte, viver de arte, seria ator. Mas como quase tudo o que é planejado não dá certo, não demorou muito e eu pensava em ser juíz, talvez diplomata. Mas nunca escritor, queria trabalhar de verdade. Nunca me imaginei sentado à frente de um computador, gastando horas e horas da minha vida com palavras, histórias, conflitos e dramas.
O café é o meu grande companheiro. Sob a caneca, repousa Machado, Lima Barreto, Drummond, Sheakespere e Saussure. A caneta, sempre das mais baratinhas e que não machuca os meus dedos, deu lugar ao teclado. Sofro de dores nos tendões, mas é o preço que pagamos por aderirmos à tecnologia. Os óculos se fazem necessarios para uma vista cansada e míope, logo aos 18. O livro sagrado também é consultado. Ester, Judite e Crônicas são os mais lidos durante o trabalho. Os outros deixo para os momentos mais íntimos entre mim e Deus.
Minha aparência é jovem, a barba por vezes, me faz ser mais velho, dando-me credibilidade, ora é só charme. Olho para o porta-retrato para ter inspiração, vejo-me no passado e no presente. Apenas isso. As músicas que escuto não traduzem o espírito, a magia jovem dessa década. Traduziram, sim, há algum tempo, a magia da juventude de meus pais. O grito de liberdade de Cazuza, as críticas de Caetano, a poesia de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Penso se faltou evocação às musas, se faltou um modelo a ser seguido, um lugar-comum para essa juventude ser tão pobre, tão podre. Enquanto me ocupo com palavras, com a magia de uma prosa bem feita ou nas tentativas de uma poesia mal feita, do outro lado da janela, o lado de fora, outside, eles se ocupam com a ilusão de uma magia aos beijos descompromissados.
Não fui a criança mais sociável do universo, e muito menos o adolescente popular que muitos sonham ser. Não fui porque não quis ser. Era feliz no anonimato, na minha aparência burguesa e nas minhas roupas incomuns. Ver pessoas iguais me causava nojo. Isso explica o porquê de eu até hoje não ser igual a todos. Sempre gostei da minha individualidade, da minha forma exclusiva de ser.
Meus amigos foram os livros, as músicas e os meus pais. Os livros me deram a idéia de ser quem sou hoje; as músicas inspiração; e meus pais deram apoio e credibilidade. Mesmo contrariados, sabendo da dificuldade de trabalhar com palavras como matéria-prima não me deixou desanimar. Nem mesmo quando eu chorei por saber que meu futuro é o mais incerto de todos. Eu dependo do meu talento e da paciência das pessoas para ler o que escrevo. Minhas palavras serão as melhores amigas de várias pessoas.
Acabei de ter uma idéia, mas isso fica para o próximo texto. Esperam que perdoem minhas fugas, minhas divagações. Esse texto provavelmente não faz muito sentido para vocês, mas explica a forma como eu me vejo hoje.
O café é o meu grande companheiro. Sob a caneca, repousa Machado, Lima Barreto, Drummond, Sheakespere e Saussure. A caneta, sempre das mais baratinhas e que não machuca os meus dedos, deu lugar ao teclado. Sofro de dores nos tendões, mas é o preço que pagamos por aderirmos à tecnologia. Os óculos se fazem necessarios para uma vista cansada e míope, logo aos 18. O livro sagrado também é consultado. Ester, Judite e Crônicas são os mais lidos durante o trabalho. Os outros deixo para os momentos mais íntimos entre mim e Deus.
Minha aparência é jovem, a barba por vezes, me faz ser mais velho, dando-me credibilidade, ora é só charme. Olho para o porta-retrato para ter inspiração, vejo-me no passado e no presente. Apenas isso. As músicas que escuto não traduzem o espírito, a magia jovem dessa década. Traduziram, sim, há algum tempo, a magia da juventude de meus pais. O grito de liberdade de Cazuza, as críticas de Caetano, a poesia de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.
Penso se faltou evocação às musas, se faltou um modelo a ser seguido, um lugar-comum para essa juventude ser tão pobre, tão podre. Enquanto me ocupo com palavras, com a magia de uma prosa bem feita ou nas tentativas de uma poesia mal feita, do outro lado da janela, o lado de fora, outside, eles se ocupam com a ilusão de uma magia aos beijos descompromissados.
Não fui a criança mais sociável do universo, e muito menos o adolescente popular que muitos sonham ser. Não fui porque não quis ser. Era feliz no anonimato, na minha aparência burguesa e nas minhas roupas incomuns. Ver pessoas iguais me causava nojo. Isso explica o porquê de eu até hoje não ser igual a todos. Sempre gostei da minha individualidade, da minha forma exclusiva de ser.
Meus amigos foram os livros, as músicas e os meus pais. Os livros me deram a idéia de ser quem sou hoje; as músicas inspiração; e meus pais deram apoio e credibilidade. Mesmo contrariados, sabendo da dificuldade de trabalhar com palavras como matéria-prima não me deixou desanimar. Nem mesmo quando eu chorei por saber que meu futuro é o mais incerto de todos. Eu dependo do meu talento e da paciência das pessoas para ler o que escrevo. Minhas palavras serão as melhores amigas de várias pessoas.
Acabei de ter uma idéia, mas isso fica para o próximo texto. Esperam que perdoem minhas fugas, minhas divagações. Esse texto provavelmente não faz muito sentido para vocês, mas explica a forma como eu me vejo hoje.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Descontração apaixonante
Não é de hoje que escuto músicas antiguinhas. Desde criança curto aquilo que veio antes de eu nascer. Seja na música, na literatura e até na moda. Digo sempre que nasci na década errada. Enfim, o post de hoje não é para ficar falando que eu gosto de coisas antigas. Vim só para colocar um trecho de uma música que escuto frequêntente e sempre me emociona. Sim, o novo DeusBoy está mais emotivo, mais sensível.
A música é do Cazuza e de mais duas pessoas, mas se eu falar os nomes, dificilmente saberão quem é. Interessados procurem no google.com, lá tem tudo. XP
PRECISO DIZER QUE TE AMO
[...]
E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo
[...]
Segue o link do vídeo do youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=nVOwiuMnHp4
A música é do Cazuza e de mais duas pessoas, mas se eu falar os nomes, dificilmente saberão quem é. Interessados procurem no google.com, lá tem tudo. XP
PRECISO DIZER QUE TE AMO
[...]
E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo
[...]
Segue o link do vídeo do youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=nVOwiuMnHp4
Retornando
Depois de longos seis meses sem simulados, vestibulares e afins, dava a desculpa de que não tinha tempo de postar alguma coisa aqui. Resolvi voltar. Esse cantinho sempre foi o meu lugar de desabafos, de filosofias e psicologias de botequim, então qual seria o motivo de não querer postar aqui?
Vergonha dos meus antigos posts? Não devo ter vergonha daquilo que um dia escrevi. Vivo no mundo das letras, não posso simplesmente usá-las em provas e textos acadêmicos. Voltei sim, e dessa vez é pra valer! (=
Vergonha dos meus antigos posts? Não devo ter vergonha daquilo que um dia escrevi. Vivo no mundo das letras, não posso simplesmente usá-las em provas e textos acadêmicos. Voltei sim, e dessa vez é pra valer! (=
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