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Uma mistura do erudito com o popular. Nada simples e nada sublime, ocupo-me com o que me interessa. Leio e escrevo para viver, é uma necessidade para ser feliz. Tenho manias, preconceitos e afinidades como todos tem. Sou um garoto criado sob uma redoma de vidro e não me envergonho disso. Gosto de poema, ouço Mozart, curto pop art, uso all star e gravata borboleta. =)

sábado, 16 de outubro de 2010

Jardim Secreto

Ela olhava para o chão, ele ouvia tudo olhando para o horizonte.Não era aquilo que Victor queria escutar. Agora tinha certeza de que todas as suas noites em claro, todas as cartas que escrevera e todas as lágrimas derramadas não serviram para nada. Talvez até serviram para alimentar ainda mais um sentimento que o faz sofrer tanto agora.
Sentia falta dos abraços, dos carinhos, de todas as brincadeiras. Até mesmo das vezes em que teve que ser duro e brigar sentia falta. Todos os indícios da imaturidade, todos os defeitos, que nela tornavam-se perfeição, faziam uma enorme falta para Victor.
Não tinha como ter sido pior. A luz do céu refletia-se no alvo rosto de Suzan, seus cabelos moviam-se lentamente, os lábios nunca tocados por Victor mexiam-se, o provocavam, mas ele sabia que não podia fazer mais nada. Avançar seria perder a confiança, embora fosse tudo o que ele queria. Victor estava completamente confuso. Não sabia se cada palavra que escutava soava como música ou como ruído. Ele queria que fosse a mais bela melodia. Ela calculava cada palavra que pronunciava. Sua voz doce não se alterava. Suzan estava em maus lençóis. Mas Victor estava na mesma situação.
Por um instante ele tentou argumentar, mas foi em vão. Ela estava decidida. Não sabia se era a melhor decisão para o futuro, mas sabia que para o momento era a mais aceitável. Os argumentos dele eram egoístas e manipuladores. Os dela também. Um pouco mais egoísta do que manipulador.
Pela primeira vez não houve indiferença. O jogo tinha se invertido, e ele não estava mais com o controle nas mãos. Sofria tudo o que fez com outras pessoas. Ele sentia na pele a dor do egoísmo, mas não da indiferença. Suzan era doce até nas piores horas, e jamais o deixaria sofrer tanto. Ele sofreria a quantidade necessária, aquela quantidade que é inevitável.
Victor não conseguia perceber o tamanho da dor e do constrangimento dela. Só queria sumir, caminhar sem olhar para trás, sem ver o estrago que tinha causado. Sua vida ficou tomada pela incerteza, pelo arrependimento. Porque o coração tem dessas coisas? Era uma pergunta sem resposta. Percebeu que a luz não refletia mais e que Suzan ficava, aos poucos, irreconhecível. Os olhos turvaram-se. Não, era tudo o que ele menos precisava naquele momento. Sentiu percorrer todo o seu rosto algumas lágrimas, que caiam no chão timidamente.
Ele chorava por algo que nunca teve. Invejou, naquele momento, inúmeros rapazes que, com facilidade, chegaram perto de Suzan e sentiram o perfume e o toque macio dos lindos lábios. Invejou aqueles que recusaram dela o que ele quase implorava. Suzan percebeu o chão molhado, e passou a fitá-lo. Explicou pela segunda, terceira vez. Repetia o mesmo discurso, como quem fala com as paredes. Ele não conseguia falar nada. No horizonte passava o filme que idealizou um dia. A vida que tinha sonhado viver. Victor viu no horizonte cada sorriso dado por ela, cada abraço e cada beijo. Conseguia vê-la à porta da igreja vestida de noiva, emocionada, depois a viu toda feliz com um exame nas mãos confirmando a gestação, viu uma criança o chamando de pai, viu um casal de cabelos brancos sentado vendo o Sol se esconder entre as montanhas. Victor permanecia parado quando todas as idealizações foram se apagando, os sonhos não se tornariam realidade. A noiva perdeu o rosto, o exame de gestação desapareceu, a criança chamava a outro de pai, e os velhinhos naquele dia perderam o pôr-do-Sol. Victor achou a melhor imagem em sua memória, não a que queria ver, mas a que precisava ver. Não conseguiu descreve-la, não conseguiu distingui-la. Dizia ser a mais bonita, a mais real. Até hoje olho para o horizonte a procura dessa imagem. Victor a guardou da mesma maneira que guarda hoje o sentimento por Suzan. À maneira mais silenciosa e secreta, à maneira como todos os sentimentos deveriam ser guardados, no jardim secreto do seu coração.

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