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Uma mistura do erudito com o popular. Nada simples e nada sublime, ocupo-me com o que me interessa. Leio e escrevo para viver, é uma necessidade para ser feliz. Tenho manias, preconceitos e afinidades como todos tem. Sou um garoto criado sob uma redoma de vidro e não me envergonho disso. Gosto de poema, ouço Mozart, curto pop art, uso all star e gravata borboleta. =)

domingo, 7 de novembro de 2010

O significado de uma chuva

Andava pela rua, segurando um guarda-chuva preto. Desviava de algumas poças e pisava em outras. O dia chuvoso não era motivo para tristeza. Alguns carros passavam e molhavam Tom, mas ele ria. Algo especial acontecia com ele, e nem sequer imaginava o que era.
Todo molhado, cantava feliz. Talvez se lembrasse de “Singing in the rain”, talvez não. O dia não fora fácil, mas andar cantando o fazia feliz. As ruas da metrópole não estavam cheias, a cidade estava parada. Passou em frente à padaria, o cheiro de pão fresco o fez sentir fome. Andou mais um pouco e passou em frente à farmácia, passou por inúmeras lojas de roupas, lanchonetes. Seus passos eram cada vez mais engraçados, andava rebolando, cantando, girando. Os alunos de uma escola riram dele quando por lá passou, mas ele não ligou. Mais alguns passos e chegou à portaria do condomínio. O porteiro abriu a portão, não o cumprimentou, Tom, sorridente, disse boa noite, mas foi ignorado. Subiu de escadas, o elevador estava passando por reformas. No seu apartamento, sozinho, tomou um banho quente, arrumou o jantar e foi ver um filme qualquer que passava na televisão. Adormeceu.
Acordou no dia seguinte com o telefone tocando. Atendeu, e com voz de sono despejou um “eu te amo”. Desligou o telefone e voltou para a cama. Não conseguiu dormir mais. Levantou, tomou café e foi ver o álbum de fotografias. Sua auxiliar já estava trabalhando, mas ele a convidou para sentar no sofá preto com almofadas vermelhas da sala íntima. Gargalharam com as fotos. Eram fotos de quando ele tinha cinco ou seis anos. Riram das roupas, riram das poses. Ouviu-se um barulho de trovão e a luz apagou. A manhã não estava tão clara para ficarem sem luz. Procuraram por velas, pararam de ver fotografias e a vida continuou. A chuva cessara. Tom refez o caminho da noite anterior, porém em sentido contrário. Dessa vez não estava mais feliz. Quando chegou ao destino, ninguém o atendeu. Assustou-se. Ninguém o avisara que não estariam para atendê-lo. Sentia o coração apertar. Colocou a mão no bolso para pegar o celular e notou que havia esquecido o aparelho em casa. Sua fisionomia revelava a preocupação. Onde estariam aqueles moradores? Sentia-se fraco. Chamou mais algumas vezes, perguntou aos vizinhos, mas ninguém sabia responder. “Teriam fugido?” pensou Tom.
Na volta para casa, não conseguia pensar em nada. Fora a caminhada mais longa de sua vida, e a mais dolorosa também. Algumas vezes olhava para o céu, mas nem sinal de chuva. Tudo o que queria era livrar-se daquela vida. Poucos metros antes de seu prédio desviou o caminho. Virou à esquerda, à direita e seguiu em frente. Chegou a um lugar sujo, fedido. As pessoas que ali habitavam, viviam nas ruas e não em casas. Eram pessoas sujas, e com toda certeza, ao tomarem um banho quente revelariam a sua beleza exuberante. Muitos ali certamente nunca viveram uma vida confortável. Nunca assistiram a um filme no cinema, não sabem o que é teatro e nem imaginam como é o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tom não encontrava adjetivos para essas pessoas, mas via um futuro brilhante em muitos daqueles rostos.
Subitamente tirou do seu blazer uma caneta e alguns pedaços de papeis. Precisava ainda de seu celular, mas com aquilo que tinha em mãos encontrava a solução para as suas aflições. Chegou perto de um rapaz que aparentava ter em torno de 25 anos. O rapaz se esquivou, amedrontou-se. “É de um desses que eu preciso”, pensou Tom.
-Bom dia. Sou Tomas Aragão.
-Bom dia- respondeu assustado.
-Não tenha medo, não quero fazer mal algum. Tenho uma oportunidade de mudança de vida.
-Mudança de vida?
-Sim, senhor... como se chama?
-Carlos. Carlos da Silva.
-Carlos, então. Eu sou caça-talentos. Sabe o que é isso?
-Caça-talentos? Por acaso é aquelas pessoas que encontram artistas?
-Isso mesmo! E por isso estou aqui falando com você. Notei seu potencial, percebi que atrás de toda essa sujeira existe um homem bom.
Nesse momento, Carlos ficou pensativo. O que aquele homem estranho queria com ele? Seria um seqüestrador? Se fosse, nunca veria resgate, ele era pobre. E se fosse um caça-talentos de verdade? Seria possível encontrar algum talento nele, uma rapaz pobre, sujo e morador de rua?
Tom percebia no olhar de Carlos a desconfiança. Em muitos anos de profissão, tinha aprendido a interpretar a reação das pessoas.
-Não tenha medo Carlos. É que realmente vi uma chance de tirar você dessa vida. Você e alguns outros companheiros seus. Pode parecer estranho eu andar por aqui, mas eu quero ajudar pessoas como você. Cansei de escolher pessoas em shoppings, em faculdades caras e em condomínios de luxo.
Ele estava decidido a mudar a vida daquele homem. Com menos de cinco minutos de conversa, já não se preocupava com os outros moradores. Apenas ele. Ele seria o seu objetivo. Com a caneta em sua mão, escreveu em um papel o seu telefone. Anotou também o seu endereço, caso ele precisasse de um banho, de uma refeição. Despediu-se dele e voltou para a sua casa. Quando chegou em casa, desabou a chorar. Estava querendo fazer aquilo há dias. Chorou umas duas horas. Depois de se acalmar, ligou para aqueles que não o atenderam. Não era de ter intuições, não era sensível para isso, mas algo o dizia que seria a pior ligação de sua vida. Do outro lado da linha, alguém atendeu, com voz de choro.
Ele desligou. Não precisava de mais nada. Chorou mais uma vez.
- Por que não aceitou a minha ajuda? – gritava indignado.
Não demorou muito, e a ligação foi retornada. Ele apenas perguntou onde estavam, pegou alguns documentos e partiu em direção a eles. Dessa vez foi de carro. Avancou sinais vermelhos, entrou na contramão, excedeu os limites de velocidade. Porém, no tempo calculado estava à porta do prédio das janelas e portas de vidro. Algumas pessoas já esperavam por ele, então entregou os documentos necessários e subiu.
- Quarto 605. – alguém lhe disse.
Quando chegou, a imagem de alguém coberto por um lençol branco foi traumatizante. Correu e abraçou seu irmão.
-Por que recusaram a minha ajuda?
-Não podíamos aceitar. Não era justo.
-Eu queria ajudar. Acha que é justo eu chorar pela morte dela agora? Vive anos da minha vida com a sensação de abandono, de fragilidade. Qualquer chuva para mim era um tormento. Você sabe o que é ser abandonado na chuva? Sabe o que é viver 25 anos sem um abraço amoroso?
-Desculpe.
-Desculpas, desculpas! Eu queria tê-la por mais tempo. Queria aproveitar o que não tive em boa parte da minha vida. Eu tinha dinheiro para pagar o tratamento no exterior. Eu havia dito. Agora? Agora estou mais uma vez abandonado.
-Desculpe.
-Chega de pedir desculpas. Todos os papéis já estão encaminhados. As exéquias já foram pedidas, todo o funeral já foi organizado.
Depois disso, Tom voltou para casa. Não sem antes visitar Carlos. Chegando lá foi recepcionado com um caloroso abraço.
-Eu aceito sua ajuda Doutor...
-Doutor não, chame-me de Tom.
Depois do abraço, foram para o apartamento de Tom. Carlos jantou, se arrumou e acompanhou Tom no funeral. Após a cerimônia, já em casa, Tom agradeceu:
-Obrigado por me deixar te ajudar. Na noite antes de te conhecer, a chuva era a maior diversão pra mim. Tinha deixado de ser um trauma, pois minha mãe tinha me reconhecido, e se ela me abandonou aos sete anos na chuva, me aceitava aos 32 em um dia chuvoso. Hoje a chuva voltou a ser tristeza. Todas as despedidas de minha mãe foram regadas com chuva. Mas você, diferente de minha mãe, me deixou fazer parte de sua vida.
Nesse momento, lágrimas já escorriam dos olhos de Tom e de Carlos, ele continuou:
- Agora a minha vida tem sentido, agora eu não sou sozinho. Eu tenho valor para alguém, alguém que conheço tão pouco, como conhecia minha mãe.

4 comentários:

  1. Mais um texto que postei sem reler infinitas vezes. Preocupado com isso. ''/

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  2. Mais um texto bonito que você postou, bem escrito, com o suspense muito bem usado causando surpresas quando chega a hora ;D
    Não se preocupe, ficou bom mesmo!

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  3. Valeu Gabriel ;D
    As aulas de IEL estão me ajudando bastante. Evoluí muito depois do Titan \o/

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  4. Na verdade merece meus parabéns, pois conseguiu prender minha anteção do começo ao fim, coisa difícil de se fazer! rs
    _
    Realmente um belo texto.

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