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Uma mistura do erudito com o popular. Nada simples e nada sublime, ocupo-me com o que me interessa. Leio e escrevo para viver, é uma necessidade para ser feliz. Tenho manias, preconceitos e afinidades como todos tem. Sou um garoto criado sob uma redoma de vidro e não me envergonho disso. Gosto de poema, ouço Mozart, curto pop art, uso all star e gravata borboleta. =)

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O julgamento

Todos olhavam para mim com olhos esbugalhados de quem julga. Julgavam-me criminoso, e eu não o era. Não tinha culpa de nada do que acontecera momentos antes. Eu não servia nem de testemunha ocular, apenas fui o primeiro a chegar. O que os olhos esbugalhados viam era o mesmo que meus olhos amedrontados viam. Ninguém entendia que estava acontecendo.
As pessoas cochichavam supondo o que ocorrera. Os sensatos, no entanto, apenas olhavam e aposto que imaginavam coisas a meu respeito e ao fato, não falavam nada. Eu queria sumir dali. Não me sentia confortável, estava sendo sufocado, mas estava imobilizado. Qualquer movimento poderia ser fatal.
Pensei que poderia ser mais uma daquelas histórias de relacionamentos que não deram certo, ou por afinidade, embora eu não consiga entender como as pessoas se apaixonavam por alguém que não tivessem afinidade, ou por traição, desgaste da relação. Queria poder falar algo, me pronunciar, me defender. Mas não era possível. Queria falar o que vi, mostrar que cheguei quando tudo já estava feito. Mas qualquer movimento que eu realizava, por menor e mais lento que fosse, era motivo de gritaria e ofensas.
Eu estava em fogo cruzado. Sentia que meu ombro estava encharcado e eu não podia fazer nada. Ao fundo de tanto barulho consegui ouvir o badalo do sino. Era meio-dia. Sentia o Sol queimar meu rosto. O suor já pingava no chão – não só o meu. Alguns abriam guarda-chuvas para tentarem fazer sombras. Nesse momento, os olhares de piedade já se voltavam para mim. Ouvia algumas vozes, ao longe;
- Que coragem! Esse homem vai para o céu.
- Digno de um herói.
Achava bonito o que diziam, mas eu estava com sede, com fome e só queria sair dali. O tempo demorava um pouco para passar. A fome apertava, passei a sentir vontade de ir ao banheiro. Depois de muito agonizar, no sol escaldante, a tarde começou a cair e a noite chegou.
-Até quando ficaria ali? – pensava irritado.
Muitos dos que estavam desde o começo foram embora, alguns poucos ficaram. Outros novos curiosos surgiram. Entre as pessoas comuns, existiam repórteres, jornalistas e fofoqueiros. Permaneci acordado aproximadamente mais duas horas, depois não consegui e fui vencido pelo cansaço. Adormeci em meio a loucura que estava a minha vida.
Não sonhei mas tive um sono tranqüilo, considerando a minha realidade. Acordei sendo cutucado por um dedo gordinho. Cutucava-me como quem cutuca um morto. Abri meus olhos e percebi que já era dia. Os sinos badalaram mais uma vez. Seis horas da manhã. Como de costume, rezei uma Ave Maria, fiz o Sinal da Cruz, e só então me toquei que estava livre. Olhei ao redor e percebi que agora eu não era mais o centro das atenções, existia uma aglomeração de pessoas olhando para baixo, no rio. Levantei rapidamente e me coloquei a olhar também. Então entendi o que acontecia. Mais um suicídio. Era o terceiro da semana, oitavo do mês. Busquei algumas informações e descobri que eram seis filhos, o pai e a mãe. Passei na igreja do sino, fiz uma prece e voltei à ponte onde eu fui agarrado pelo último da família. Lá ouvi choros desesperados. Uma pessoa dava entrevista a um dos repórteres e dizia que a família se matou porque a filha mais nova morrera no hospital por motivos desconhecidos. Lembrei-me do que me diziam quando eu era criança e ainda morava no interior:
- Sempre que alguém morre, as igrejas põem os sinos a tocarem, anunciando o falecimento.
Ao fim do meu pensamento, barulho de pequenas sinetas se aproximava. Era a procissão para os mortos. Percebi então, que cada vez que o sino tocava, não indicava seis horas ou meio-dia, indicava mais um suicídio, e por tal razão a mulher não me soltava, queria ter certeza que apenas um filho a veria morta.

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