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Uma mistura do erudito com o popular. Nada simples e nada sublime, ocupo-me com o que me interessa. Leio e escrevo para viver, é uma necessidade para ser feliz. Tenho manias, preconceitos e afinidades como todos tem. Sou um garoto criado sob uma redoma de vidro e não me envergonho disso. Gosto de poema, ouço Mozart, curto pop art, uso all star e gravata borboleta. =)

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A Capital

Quando o telefone tocou dei um pulo de alegria. Esperava dias por uma ligação. Desde que fora à Dinamarca há cinco anos não ligou para mim. Ao mesmo tempo em que estava feliz, sentia medo. Será que o amor ainda resistia ao tempo? E se existisse algum homem em sua vida? Não tinha as respostas para as minhas perguntas.
Corri e atendi ao telefone. Em segundos lembrei-me de tudo o que fizermos juntos. Quantas lágrimas derrubei, quantos risos, passeios e carinhos.
Lembrei-me de um acontecimento importante. Foi quando ela recebera a resposta de seu trabalho. Esperávamos juntos pela carta. O carteiro bateu à porta, nós corremos e até abraçamos o carteiro, que ficou ali, parado, sem nada entender. Resolvemos que leríamos no jardim, já que lá foi o lugar da decisão de tentar um novo emprego. Sentamos no banco de ferro de quase cem anos e abrimos a carta. Trocávamos beijos. Nossos olhos brilhavam de alegria. Nossa certeza de que moraríamos na capital era tamanha, que até já tínhamos comprado um belo apartamento. Abrimos a carta e vimos que ela fora aceita na empresa. Rimos, comemoramos, ligamos para os nossos pais, para os nossos amigos, marcamos uma reunião de família, contratamos garçons, decoramos nosso jardim, preparamos alguns pratos e recebemos nossos convidados. Era a nossa despedida da pacata cidade do interior. Iríamos para a Capital.
Na manhã seguinte nossas malas estavam prontas, os móveis embalados e esperávamos pelo caminhão de mudanças. Despedi-me dos meus alunos, dos companheiros de trabalho, do material dourado. Quando percebi, já sentia o ar um pouco mais carregado. Respiramos fundo, estávamos na capital!
O ar seco, ruas lotadas e pavimentadas, edifícios, lojas, construções antigas ao lado de novas. Enquanto os funcionários arrumavam os nossos móveis no apartamento, dirigimo-nos até a empresa de minha esposa. Fomos recebidos como reis. O diretor da companhia nos recebeu em sua sala, e em meio a risos e cumprimentos, pediu nosso passaporte. Passaporte? Éramos brasileiros, não precisávamos desse documento. Desculpamo-nos e falamos que não estávamos com o documento solicitado. Desapontado, o diretor olhou para a minha esposa e perguntou se tínhamos lido atentamente a correspondência. Precipitei-me e respondi negativamente. Ele rapidamente no explicou que minha esposa fora aceita, mas para trabalhar na Europa. Ele nos mandou á Polícia Federal. Nós fomos.
No caminho, só pensávamos que, com o nosso novo apartamento, sem podermos vender a casa do interior, não teríamos dinheiro para pagar a minha passagem. Antes mesmo de chegarmos ao nosso destino, tomei uma decisão. Ela iria antes, e depois de um tempo juntando dinheiro, eu embarcaria. Em menos de dois meses lá eu estava, no Aeroporto Internacional Salgado Filho chorando ao ver minha esposa entrar na aeronave com destino à Dinamarca.
Para me manter sozinho na capital, voltei à sala de aula. Consegui duas turmas do ensino fundamental, e os ensinava matemática. Com pouco mais de um ano da data da partida, eu já era diretor. Minha vida na capital caminhava muito bem. Depois de três anos, sem contato com minha esposa, já não lembrava mais de sua voz, do seu cheiro, do seu toque.
Hoje, depois de cinco anos ela resolveu me ligar. Durante todo esse tempo fiquei sozinho, entre Porto Alegre e Uruguaiana, mas e ela, ficou sozinha? Ouvi um “alô”. Meus olhos encheram de lágrimas. “Tem como me buscar no Salgado Filho? Resolvi fazer uma surpresa. Fui transferida para o Brasil e passarei o resto da minha vida ao seu lado.”
Não pensei duas vezes. “Em menos de trinta minutos estarei ai.”
Desliguei o telefone.

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