E quando viu, o relógio estava parado. Não, não era só o relógio. Sentia que o mundo não girava mais, as pessoas não envelheciam e nem as flores floresciam. O Sol, parado na posição indicativa das nove horas deixava o clima agradável. A brisa que vinha do vale era fresca. O barulho da cachoeira era incessante, mas tranqüilizava até o mais agitado ser humano. Os pássaros alimentavam seus filhotes no ninho. Augusto observava tudo atentamente. Os cabelos louros e lisos movimentavam-se com a brisa. Algo no chão se moveu, e chamou a atenção do belo rapaz. Era um pequeno lírio branco.
-Como se move? – questionou o rapaz.
Olhando fixamente para a flor, não entendia como aquilo ocorria.
-Tudo está parado, porque se move? – Voltou a questionar.
Uma voz doce e suave respondeu:
- Movimento-me com as batidas de seu coração. Se ele bate de forma acelerada sou capaz de crescer, ganhar novas pétalas, se ele bate lentamente, não cresço, fico da forma como estou até faltarem-me forças e eu começar a murchar.
-Não quero me responsabilizar por seu crescimento – retrucou o garoto –olhe ao seu redor. Sou o responsável por tudo isso que acontece agora?
A voz não tornou a responder. A flor começava a murchar. Augusto suava frio, sem entender o que era aquilo de verdade. Seria um sonho? Poderia ser. Nada era real, tudo era fantasia. Custava-lhe muito entender.
Resolveu andar. Após umas cinco horas, conforme seus cálculos, já que tudo estava parado, sentiu-se cansado. Lembrou-se da cachoeira, e voltou para beber um pouco de água e descansar. Chegou a encontrar a montanha e o leito do rio. Mas não havia cachoeira, não havia água. Tudo estava seco. O verde da grama viçosa dava lugar ao marrom. O colorido de todas as flores estava desaparecendo. Apenas o lírio branco insistia em manter-se vivo, embora murcho. Cansado e sem água para refrescar-se, dormiu sob a relva seca. Sonhou com uma moça bonita. Não a conhecia, disso ele tivera certeza após acordar e lembrar-se do sonho. Por um instante sentiu uma fisgada no peito.
Passou um bom tempo pensando na bela moça. Era loura, com o jeito de menina, encantadora, sim, encantadora era a melhor adjetivação. Sua beleza ultrapassava a caracterização física. Ia além do que os olhos podiam ver. Impaciente, não parava mais de pensar nela.
Voltou a dormir, e quando acordou notou a presença feminina. A moça dos sonhos aparecera por lá, onde até o Sol estava paralisado. Pessoalmente era muito mais encantadora. Incrédulo com o que via, apenas admirava. Admirava o que para ele era irreal. Observava cada detalhe. Os olhos azuis, os belos cabelos dourados, o corpo muito bem contornado. A ingenuidade o cativava.
-Admira-me mais. Também estou o admirando. – disse uma voz doce e suave.
-Tal voz é inconfundível. Não olho para você pequeno lírio. Olho para a moça dos meus sonhos. Você é lindo, mas não o admiro agora. – respondeu Augusto.
Silêncio.
O silêncio era tudo o que conseguiam fazer. A moça deixava-se admirar, e o lírio conformava-se com a ausência de Augusto naquele momento. Aos poucos uma água fresca passava pelos pés do menino. O barulho da cachoeira voltava a quebrar o silêncio. Imediatamente Augusto olhou para o chão. Uma linda flor branca voltava a viver, dessa vez muito mais bonita. Ao redor dela, pequenos botões de rosa coloridos nasciam. O cenário voltava a ter vida e uma beleza inconfundível. Tão logo, o Sol começou a mover-se. Augusto notou pelo movimento que sua sombra agora fazia. A bela moça apenas sorria.
-És como o lírio. –ele disse.
Resolveu abraçá-la. Hesitou um pouco antes de agir, mas o fez. Abraçou-a como se a abraçasse pela última vez. Ao seu ouvido, a vos doce falou:
-Terá toda a sua vida para me abraçar. Só não esqueça de regar o lírio, pois com ele eu vivo.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
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Que muito bonito! :D
ResponderExcluirNossa, muito bom *-* quero ler mais escritos seus, continue escrevendo! \o/
Ao meu ver esse texto é o mais bonito de todos *-*
ResponderExcluirVocê tem talento Diego, parabéns ;)