Os passos lentos pela praia revelavam algo melancólico. Melancólico não era a adjetivação correta. Triste, sim, era triste o algo revelado pelos passos. O andar parecia levar ao infinito. A brisa que soprava fortemente do mar bagunçava os cabelos e levava alguns grãos da areia aos olhos, que permaneciam cerrados, a fim de evitar que os tais grãos perturbassem a visão. As ondas não estavam agitadas, e não deveriam estar, já que o vento não era tão forte assim, a ponto de agitar as águas do mar.
Escolheu a praia para caminhar, não porque todos os apaixonados a escolhem, mas porque sentia algo especial por esse tipo de ambiente. O perfume, a sensação de frescor, e a tendência ao infinito faziam com que se sentisse bem. Ainda era cedo, mas algumas famílias montavam as barracas para passarem o dia feliz na praia. Elas enfrentaram um trânsito caótico, carros quentes e apertados, carregavam dezenas de quinquilharias, e teriam que se adaptar ao clima litorâneo. Essas pessoas conheciam a cidade fantasia: as belas praias, algumas estátuas, o píer e um aquário antigo, mantido porcamente pela administração municipal.
Enquanto caminhava, sentia a areia ser compactada pelos seus pés, algumas conchas se quebravam quando acidentalmente pisava nelas. Nada disso o incomodava. Algumas vezes iniciava uma pequena corrida, que não durava alguns poucos segundos. Ainda andando, olhou para o mar, avistou um barco de pescadores, era pequeno, virando a cabeça, observou a multidão que lotava o espaço com areia até que chegou com o olhar na outra direção. À sua esquerda, uma menina e dois garotos arrumavam as toalhas que serviriam para tomar Sol. Num movimento similar ao de uma onda as toalhas foram se alojando no chão. Os adolescentes sorriam. O olhar voltou lentamente para frente, e quando chegou no centro, tudo escureceu, rapidamente clareou, notou o azul do céu, num movimento parabólico, até chegar numa posição em que apenas o azul era visível. Sentiu o impacto. As pálpebras se fecharam a tempo de protegerem os olhos da água salgada que rapidamente cobriu todo o seu rosto. Não foi o suficiente para que se afogasse. Sentiu a água indo embora, abriu os olhos e notou uma mão estendida oferecendo ajuda. Sua mão encontrou a mão alheia. Tinha aceitado a ajuda.
Levantou-se e cordialmente agradeceu a ajuda e a preocupação. O agradecimento foi aceito e, tão logo, já estava sozinho. Correu e chamou. Seus olhos a fitavam, seu coração batia acelerado. Alguns rostos viraram em sua direção, sentiu-se acuado. Quando o rosto também virou em sua direção. Os olhos pretos também o fitaram. Ele correu na direção dela. Queria saber o nome, de onde era, a idade, o que fazia. Queria saber tudo o que podia. Mas quando se aproximou, apenas perguntou o nome. Ao longe, uma mulher de meia-idade se aproximava dos dois. Antes mesmo de responder a pergunta, a mulher gritou o seu nome. Ambos riram encabulados.
- Sou Gregori. – disse sem que ninguém o perguntasse.
- Ah sim, desculpe. Não perguntei o seu nome. Como ouviu, sou a Tati, e aquela é minha irmã, Ana.
- Olá Ana! Encantado com a beleza de vocês.
- Não se encante conosco. Aqui tem muito mais coisas que provocam encantamento.
Após isso, deram as costas e deixaram Gregori pensativo, solitário, como estava antes.
O vento parou de soprar. Ele olhou no relógio e viu que já estava na hora de retornar. Virou 180 graus, e seguiu rumo à sua casa. Lá, havia mulheres muito mais encantadoras do que as duas que encontrara minutos antes nas areias da praia. Sua avó certamente estaria esperando por ele, com um delicioso café da manhã, e sua mãe e sua filha esperando para que ele as levasse até a escola.
Seus passos agora estavam alegres. Vira pela manhã o céu. Não conseguiu ver o anjo, só uma imitação, mas ver o céu foi suficiente para fazê-lo feliz. Precisava disso, e o anjo também.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
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