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Uma mistura do erudito com o popular. Nada simples e nada sublime, ocupo-me com o que me interessa. Leio e escrevo para viver, é uma necessidade para ser feliz. Tenho manias, preconceitos e afinidades como todos tem. Sou um garoto criado sob uma redoma de vidro e não me envergonho disso. Gosto de poema, ouço Mozart, curto pop art, uso all star e gravata borboleta. =)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Entre amor, sangue e fogo

À beira da lareira com um livro na mão, esperava o silêncio para que começasse a ler. As crianças, pouco a pouco, ocupavam suas camas quentinhas. Em poucos instantes, só ouvia o estalar das lenhas queimando e aquecendo a sala acarpetada e com poucos móveis. Do lado de fora da janela, o vento soprava fortemente. A sala, tomada pelo calor, tornava-se um ambiente propício para um chocolate quente. A poltrona solitária, alguns papéis sobre a mesa no canto, o sofá macio bagunçado, um ou dois abajures acesos, a vela quase apagando, as flores já murchas. Na parede, dois cartazes do Louvre. Sob a janela, uma cortina pesada, antiga e empoeirada. À mesa ao centro, uma caixa dourada muito bem conservada guardava as cinzas de algum familiar. Alguns livros de arte, uma estatueta de bronze, e duas garrafas de perfume de cristal terminavam a composição ao centro da sala. O busto de mármore sob um pedestal confeccionado com o mesmo material desejava as boas-vindas. Já passava das 23 horas.
Nessa altura, com um o silêncio necessário a leitura foi iniciada. A página era a 256, segundo parágrafo, capitulo CIX. Como que sussurrando, com sua voz grave leu:
“-Agora, se considerares que ele foi o único, que nenhum outro veio certo nem incerto...” – E continuou a leitura de forma silenciosa.
As palavras foram suficientes para dar-lhe ânimo. Colocou o livro sobre o chão, levantou-se, atravessou a sala e subiu a escada de marfim. No corredor dos quartos, as portas estavam fechadas. O seu destino era certo. Não havia dúvidas e nem motivos para que elas existissem. Ouviu um barulho e parou assustado. Constatou que era lá fora. Continuou a caminhar. À frente da última porta do corredor, parou. Olhou para si mesmo, olhou para o alto como quem faz uma oração. Respirou demoradamente. Levou lentamente a mão à maçaneta. Girou. A porta rangeu ao abrir. Dentro do quarto, tudo escuro. Caminhou lentamente à cama. Acendeu uma vela que estava ao lado da cama, junto à bíblia e um copo com água. Tinha agora a certeza de que a mulher que repousava no leito era religiosa. Antes de acordá-la, pensou por alguns minutos. Lembrou do que ocorrera, sentiu ciúmes, sentiu raiva. Teve vontade de sair daquele quarto sem fazer nada. Sua cabeça girava. Quantas noites passaram juntos? Tentava lembrar, talvez algumas centenas. Sua respiração ofegava. A mulher, sentia-se incomodada com a luz da vela, e virava-se bastante em sua cama. Enquanto não acordava a mulher, pegou a vela e examinou o quarto. Manchas de sangue estavam espalhadas pelo chão e pelo lençol. Algumas bacias com água modificavam a decoração provençal do quarto. A cortina que nunca ficava fechada, naquela noite fechara-se. O ar frio do quarto o contagiava. Ouviu um choro, parecia vir de outro quarto. Passava das duas da manhã. Criou coragem. Foi à cabeceira e despejou as palavras, regadas com lágrimas. Eram palavras de desculpas misturadas com palavras de amor. Soluçava. Ao encostar seus lábios na testa da mulher notou que estava fria. O grito foi inevitável. Com cuidado, levou o lençol até cobrir todo o corpo. Antes que cobrisse tudo, emocionado, mais uma vez pediu desculpas, e prometeu cuidar do irmão que nascera horas antes de todos se recolherem.

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