Eu não era tudo o que ela tinha na vida. Havia quatro filhos, dois ex-maridos, um cachorro e alguns peixinhos. Sua vida era ocupada pelos serviços domésticos, atividades dos filhos e seu emprego. Trabalhava em uma pequena redação. Era um jornal de pequena circulação, nada além de quatro ou cinco municípios sem importância.
Sempre bem vestida, não dispensava um bom sapato e sua bolsa Louis Vuitton. Poderia não estar com roupas caras, mas sua bolsa era sempre uma Vuitton. Não ostentava luxo, não tinha uma mansão e nem um bom carro importado na garagem. Para o emprego, deixava seu carro usado na garagem e usava um ônibus municipal. O carro só servia para a locomoção dos filhos ou alguma emergência. Combustível era caro e a manutenção também, além dos gastos com seguradora de autos, que cobrava um absurdo por uma lata-velha.
Na redação, cuidava de tudo. Era a editora, a redatora, a repórter e a fotógrafa. As vezes, era até mesmo a recepcionista e a secretária. Não tomava café, apenas chá e sempre sem açúcar. Seu estômago não tolerava leite. Só de ouvir essa palavra, já podia sentir as dores. Era uma excelente profissional, embora alguns não gostassem dela por causa de suas manias. Uma das mais irritantes eram as repetições. Tinha dias em que contava umas oito vezes a mesma historia. Quando isso acontecia, a melhor saída era ignorá-la. Contudo, como já dito anteriormente, era uma boa profissional.
Um de seus dois ex-maridos, o primeiro, ainda era ciumento. Não gostava quando ia buscar o filho no final de semana e a visse vestindo saias. Eram separados há 17 anos, mas parecia que ele ainda gostava dela. Seus olhos brilhavam sempre que a via e seu coração parecia sair pela boca. Ela sempre discreta, fingia não ver tais reações.
Seu segundo ex-marido era mais assanhado. Cada vez que ia buscar os outros três filhos aparecia com uma dama diferente. Esse fora o motivo da separação. Os olhos dele não brilhavam para ela, assim como nunca brilhara antes. Após 5 anos de separação, ainda não entendia como fora, um dia, apaixonar-se por um homem como ele.
Entrei na sua vida ao acaso, se é que casualidade existe. Acontece que um dia, ela, voltando da redação indo em direção ao ponto de ônibus, falando ao celular, não percebeu que vinha em minha direção. Eu andava distraído, cheio de livros na mão, uma lata de refrigerante, falando ao celular também e olhando para um rabo-de-saia qualquer que passava. Na frente de uma pequena joalheria com ares provincianos, trombamos. Meus livros espalharam-se todos pelo chão, a lata de refrigerante voou para longe. Ela se abaixou e começou a me ajudar a recolher os livros. Recolhemos todos, todos menos um, que ficou pela calçada. Naquele instante em que trombamos algo de profundo nos tocou. Era como se já nos conhecêssemos.
Convidei para um café na lanchonete da esquina. Sabia que lá tinha o melhor cappuccino de toda a cidade. Tomamos um café demorado, quase duas horas. Conversamos, demos risada e quase na hora de sair, trocamos os telefones.
Ela pegou o 158, eu o 003. Morávamos longe um do outro. Ela tinha quase 40, eu 20.
Todos os dias, nos mesmo horário, tomávamos o nosso demorado café. E tudo ficou assim. O vazio do livro foi preenchido pelo riso de uma mulher bem vestida de bolsa Vuitton, que certamente carregava um romance depois daquela tarde.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
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Diego, adorei! :-D
ResponderExcluirE fiquei com aquela cara... como eu não sabia desse espaço para as suas palavras?
Por enquanto li só este post porque estou quebrada (amanhã te conto), mas voltarei para ler o que mais você já escreveu.
Um beijo!
Obrigado Flávia. Realmente não divulgo muito o meu espaço. Mas fiquei muito feliz que tenha adorado; =))
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