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Uma mistura do erudito com o popular. Nada simples e nada sublime, ocupo-me com o que me interessa. Leio e escrevo para viver, é uma necessidade para ser feliz. Tenho manias, preconceitos e afinidades como todos tem. Sou um garoto criado sob uma redoma de vidro e não me envergonho disso. Gosto de poema, ouço Mozart, curto pop art, uso all star e gravata borboleta. =)

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Traição Perfeita

E chorava como uma criança quando tem dor. As lágrimas caiam pelo rosto de uma forma sofrida. Não podia evitar tamanho sofrimento. Ao seu lado, Vivian não podia fazer nada. Parada, apenas olhava como alguém olha para um retrato. Renan também não fazia nada, mas ele nem olhava, apenas escutava com angústia o soluçar.
O motivo das lágrimas é explicado retornando à uma tarde quente e ensolarada de novembro. Era dia 18. Sentados à beira-mar tomando água de coco para se refrescarem, nenhuma palavra era pronunciada. O barulho do mar misturava-se ao barulho da agitada Ipanema. As meninas não passavam no doce balanço a caminho do mar. Passavam, mas num balanço nada doce. Pareciam carnes expostas desfilando seus biquínis. As que estavam na areia, lembravam carne-seca, esturricada ao sol acompanhada de muito sal. Algumas brilhavam, outras avermelhavam, mas todas aproveitavam a tarde ensolarada. Com chapéus, chinelos e roupa, sentados estava o casal.
Vivian era branquinha, descendência alemã. Odiava o calor. Morava no Rio de Janeiro desde que se casou com Victor, um rapaz descendente de portugueses, que acreditava ter uma linhagem real, já que tinha um dos sobrenomes de Dom. Pedro II – Alcântara.
Casaram-se há cinco meses. Ela terminara a faculdade de Direito em Coimbra, ele ainda cursava Medicina na Universidade Estadual. A universidade ocupava toda a semana dele com aulas, residência e palestras. Ela trabalhava de segunda à sexta, com direito às quartas livres. Seus casos eram pequenos, mas garantiam vitória. Seu escritório ficava no centro. Ela era conhecida em toda a cidade, não pela profissão, mas porque era da linhagem de um Condado alemão, antes mesmo do 1º Reich.
Nessa mesma tarde ensolarada e sem assunto, o celular tocou. Após um pouco mais de duas horas ao telefone, um encontro estava marcado. Victor não acreditava no que ouvia. Era um domingo, único dia que poderia aproveitar a esposa e ela tinha um encontro. Para não deixá-lo sozinho, o convidou. Ele aceitou prontamente. Em pouco menos de três horas estavam em um restaurante esperando um cliente promissor.
Com quinze minutos de atraso, à porta do local aparecia um rapaz alto, bem vestido, com um costume muito bem cortado à italiana, vestindo uma gravata de seda azul, sapatos engraxados impecavelmente e um sorriso no rosto. Era o cliente aguardado.
Após cumprimentos e alguns risos, Victor pode reparar no rapaz que estava agora sentado à sua mesa conversando com sua esposa. O rosto era liso, sem marcas ou manchas. A barba meio loira muito bem desenhada realçava o queixo e afinava o rosto que já era fino. Os lábios eram bem desenhados, preenchidos no tamanho exato e de tom rosado. Os olhos eram azuis e redondos, mas não grandes. Era um rosto simétrico, equilibrado.
O assunto era intrigante. Despertava a curiosidade. Como podia, sua esposa, lidar com tamanha barbaridade? Ficaram no restaurante até tarde da noite. Voltaram para a casa. No caminho da Lapa até o Leblon só planejavam o que fariam com o dinheiro que Vivan receberia pelos honorários. Chegaram ao apartamento em que moravam e dormiram. Semanas se passaram. Victor precisaria viajar aos Estados Unidos para realizar um curso de especialização e concluir a faculdade de medicina. Após todos os acertos, embarcou, sem previsão de volta, já que precisaria cumprir residência médica no Hemisfério Norte. Vivian ficou sozinha. Para facilitar as coisas enquanto o marido viajava, resolveu trabalhar em casa. Levou para o escritório do apartamento pilhas e pilhas de documentos e passou a receber alguns clientes em casa, entre eles o do restaurante do domingo de novembro. Em pouco tempo, tornaram-se amigos, passavam muito tempo juntos analisando o caso, e entre o expediente tomavam café e riam.
Renan era o nome do cliente e, agora, amigo. Ele já estava tão acostumado com Vivian que não era raro ele aparecer trajando roupas esportivas, de chinelos. Ela estava carente, o marido partira há 4 meses. Certo dia, Renan apareceu de repente. Ela o mandou subir. Quando abriu a porta, uma surpresa: ele estava apenas de sunga, segurando uma toalha de banho nas mãos, usando um chinelo branco, com boné e óculos escuro. Ele estava a convidando para um banho de mar. Ela recusou, alegando ter muito trabalho e que estava com saudades do esposo. Ele entendeu perfeitamente e foi embora.
Nesse dia, Vivian pode reparar no Renan que ainda não conhecia. Por baixo de roupas esportivas e sociais como aparecera outrora estava um Renan que vinha dos sonhos de qualquer garota adolescente. Ela vira um corpo escultural, com tórax bem definido, barriga malhada e pernas torneadas. Aquele corpo poderia levar qualquer mulher ao delírio, até mesmo ela, que era casada com um estudante de medicina sem tempo para malhar e não tinha um corpo desenhado como o de Renan.
Outras visitas inesperadas aconteceram, até que uma foi fatídica. Vestido, porém, Renan fez uma proposta indecente. Queria que Vivan participasse de algo ilegal. Vivian hesitou, mas aceitou. Eram dois infratores.
Após alguns dias repletos de ensaios e planos, foram para a concretização.
Combinaram de se encontrar na Lagoa, às 21 horas. Era um bom horário para quem precisava fazer tudo escondido. Nesse dia não fez calor na capital fluminense. Vivian foi apanhada no local combinado e partiram rumo à região dos Lagos. Na calada da noite, concretizariam o que planejaram. Tudo ocorria de maneira perfeita. Ruas vazias, um portão entreaberto e uma cópia da chave da porta dos fundos no esconderijo. Na vizinhança não havia cachorros. Pouco ou quase nenhum barulho era produzido. Entraram na casa e não tiveram nenhuma surpresa. Todas as salas do térreo estavam vazias, a cozinha e o lavabo também. No alto da escada já podiam ver todas as luzes apagadas. O quarto escolhido era o último do corredor. Abriram a porta com cuidado e executaram o serviço. Almofadas abafaram os gritos. O punhal foi certeiro, bem no coração. Saíram com cautela da casa e voltaram para o Rio. Chegaram quase no horário do almoço. Dirigiram-se à uma cantina italiana e ao som de Tarantela e regado com muito vinho se deliciaram. Naquele dia o vinho não era tinto.
Vivian voltou para o apartamento no Leblon, ligou para o marido, falou que sentia saudades e que o amava. Tomou um banho que quase foi interrompido pelo interfone. Era um detetive de polícia. Em pouco menos de duas horas de interrogatório ela estava na delegacia de polícia, frente a frente com Renan, bem vestido, com um costume francês, sapatos feito à mão e uma bela gravata de cetim. O sorriso continuava no rosto como o sorriso do primeiro encontro. Os cabelos bem penteados, a barba aparada, mostrando uma elegância incomum. Fizeram exames juntos. Dessa vez, Vivan viu muito mais do que tinha visto no dia do primeiro convite para um banho de mar. Dessa vez não se deliciou com o que viu. O corpo continuava atraente e bonito, mas as circunstâncias a impediam tal deleite. Renan não parava de olhar para ela, que permaneceu encabulada durante todo o exame. Não estava encabulada com o que ocorria na sala, mas pelo que fizera na noite anterior.
Assim que soube da notícia, Victor retornou ao Brasil. Pensava em meios de salvar a mulher que amava. Era tarde. Na visita, chorou como uma criança. Não porque sua esposa estava presa, mas porque ela estava viva. Casara com a assassina de sua própria mãe. Não chegou a tempo de acompanhar o funeral, não pode se despedir de sua mãe. A única coisa que fazia era chorar, assistido por uma mulher de olhar frio. Para o homem, apenas fazia uma música. Angustiante e dolorida. O arrependimento tomava conta de um corpo desejado.

2 comentários:

  1. Nossa, surpresas e surpresas!
    Mais um texto muito bem escrito (essa é a parte que não surpreende) por você, parabéns de novo!

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  2. Surpreendente!
    O texto está lindo Dih, você está cada vez melhor!
    Sua carreira é promissora e seu talento está aqui!

    Parabéns!!

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