Todos olhavam para mim com olhos esbugalhados de quem julga. Julgavam-me criminoso, e eu não o era. Não tinha culpa de nada do que acontecera momentos antes. Eu não servia nem de testemunha ocular, apenas fui o primeiro a chegar. O que os olhos esbugalhados viam era o mesmo que meus olhos amedrontados viam. Ninguém entendia que estava acontecendo.
As pessoas cochichavam supondo o que ocorrera. Os sensatos, no entanto, apenas olhavam e aposto que imaginavam coisas a meu respeito e ao fato, não falavam nada. Eu queria sumir dali. Não me sentia confortável, estava sendo sufocado, mas estava imobilizado. Qualquer movimento poderia ser fatal.
Pensei que poderia ser mais uma daquelas histórias de relacionamentos que não deram certo, ou por afinidade, embora eu não consiga entender como as pessoas se apaixonavam por alguém que não tivessem afinidade, ou por traição, desgaste da relação. Queria poder falar algo, me pronunciar, me defender. Mas não era possível. Queria falar o que vi, mostrar que cheguei quando tudo já estava feito. Mas qualquer movimento que eu realizava, por menor e mais lento que fosse, era motivo de gritaria e ofensas.
Eu estava em fogo cruzado. Sentia que meu ombro estava encharcado e eu não podia fazer nada. Ao fundo de tanto barulho consegui ouvir o badalo do sino. Era meio-dia. Sentia o Sol queimar meu rosto. O suor já pingava no chão – não só o meu. Alguns abriam guarda-chuvas para tentarem fazer sombras. Nesse momento, os olhares de piedade já se voltavam para mim. Ouvia algumas vozes, ao longe;
- Que coragem! Esse homem vai para o céu.
- Digno de um herói.
Achava bonito o que diziam, mas eu estava com sede, com fome e só queria sair dali. O tempo demorava um pouco para passar. A fome apertava, passei a sentir vontade de ir ao banheiro. Depois de muito agonizar, no sol escaldante, a tarde começou a cair e a noite chegou.
-Até quando ficaria ali? – pensava irritado.
Muitos dos que estavam desde o começo foram embora, alguns poucos ficaram. Outros novos curiosos surgiram. Entre as pessoas comuns, existiam repórteres, jornalistas e fofoqueiros. Permaneci acordado aproximadamente mais duas horas, depois não consegui e fui vencido pelo cansaço. Adormeci em meio a loucura que estava a minha vida.
Não sonhei mas tive um sono tranqüilo, considerando a minha realidade. Acordei sendo cutucado por um dedo gordinho. Cutucava-me como quem cutuca um morto. Abri meus olhos e percebi que já era dia. Os sinos badalaram mais uma vez. Seis horas da manhã. Como de costume, rezei uma Ave Maria, fiz o Sinal da Cruz, e só então me toquei que estava livre. Olhei ao redor e percebi que agora eu não era mais o centro das atenções, existia uma aglomeração de pessoas olhando para baixo, no rio. Levantei rapidamente e me coloquei a olhar também. Então entendi o que acontecia. Mais um suicídio. Era o terceiro da semana, oitavo do mês. Busquei algumas informações e descobri que eram seis filhos, o pai e a mãe. Passei na igreja do sino, fiz uma prece e voltei à ponte onde eu fui agarrado pelo último da família. Lá ouvi choros desesperados. Uma pessoa dava entrevista a um dos repórteres e dizia que a família se matou porque a filha mais nova morrera no hospital por motivos desconhecidos. Lembrei-me do que me diziam quando eu era criança e ainda morava no interior:
- Sempre que alguém morre, as igrejas põem os sinos a tocarem, anunciando o falecimento.
Ao fim do meu pensamento, barulho de pequenas sinetas se aproximava. Era a procissão para os mortos. Percebi então, que cada vez que o sino tocava, não indicava seis horas ou meio-dia, indicava mais um suicídio, e por tal razão a mulher não me soltava, queria ter certeza que apenas um filho a veria morta.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
O significado de uma chuva
Andava pela rua, segurando um guarda-chuva preto. Desviava de algumas poças e pisava em outras. O dia chuvoso não era motivo para tristeza. Alguns carros passavam e molhavam Tom, mas ele ria. Algo especial acontecia com ele, e nem sequer imaginava o que era.
Todo molhado, cantava feliz. Talvez se lembrasse de “Singing in the rain”, talvez não. O dia não fora fácil, mas andar cantando o fazia feliz. As ruas da metrópole não estavam cheias, a cidade estava parada. Passou em frente à padaria, o cheiro de pão fresco o fez sentir fome. Andou mais um pouco e passou em frente à farmácia, passou por inúmeras lojas de roupas, lanchonetes. Seus passos eram cada vez mais engraçados, andava rebolando, cantando, girando. Os alunos de uma escola riram dele quando por lá passou, mas ele não ligou. Mais alguns passos e chegou à portaria do condomínio. O porteiro abriu a portão, não o cumprimentou, Tom, sorridente, disse boa noite, mas foi ignorado. Subiu de escadas, o elevador estava passando por reformas. No seu apartamento, sozinho, tomou um banho quente, arrumou o jantar e foi ver um filme qualquer que passava na televisão. Adormeceu.
Acordou no dia seguinte com o telefone tocando. Atendeu, e com voz de sono despejou um “eu te amo”. Desligou o telefone e voltou para a cama. Não conseguiu dormir mais. Levantou, tomou café e foi ver o álbum de fotografias. Sua auxiliar já estava trabalhando, mas ele a convidou para sentar no sofá preto com almofadas vermelhas da sala íntima. Gargalharam com as fotos. Eram fotos de quando ele tinha cinco ou seis anos. Riram das roupas, riram das poses. Ouviu-se um barulho de trovão e a luz apagou. A manhã não estava tão clara para ficarem sem luz. Procuraram por velas, pararam de ver fotografias e a vida continuou. A chuva cessara. Tom refez o caminho da noite anterior, porém em sentido contrário. Dessa vez não estava mais feliz. Quando chegou ao destino, ninguém o atendeu. Assustou-se. Ninguém o avisara que não estariam para atendê-lo. Sentia o coração apertar. Colocou a mão no bolso para pegar o celular e notou que havia esquecido o aparelho em casa. Sua fisionomia revelava a preocupação. Onde estariam aqueles moradores? Sentia-se fraco. Chamou mais algumas vezes, perguntou aos vizinhos, mas ninguém sabia responder. “Teriam fugido?” pensou Tom.
Na volta para casa, não conseguia pensar em nada. Fora a caminhada mais longa de sua vida, e a mais dolorosa também. Algumas vezes olhava para o céu, mas nem sinal de chuva. Tudo o que queria era livrar-se daquela vida. Poucos metros antes de seu prédio desviou o caminho. Virou à esquerda, à direita e seguiu em frente. Chegou a um lugar sujo, fedido. As pessoas que ali habitavam, viviam nas ruas e não em casas. Eram pessoas sujas, e com toda certeza, ao tomarem um banho quente revelariam a sua beleza exuberante. Muitos ali certamente nunca viveram uma vida confortável. Nunca assistiram a um filme no cinema, não sabem o que é teatro e nem imaginam como é o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tom não encontrava adjetivos para essas pessoas, mas via um futuro brilhante em muitos daqueles rostos.
Subitamente tirou do seu blazer uma caneta e alguns pedaços de papeis. Precisava ainda de seu celular, mas com aquilo que tinha em mãos encontrava a solução para as suas aflições. Chegou perto de um rapaz que aparentava ter em torno de 25 anos. O rapaz se esquivou, amedrontou-se. “É de um desses que eu preciso”, pensou Tom.
-Bom dia. Sou Tomas Aragão.
-Bom dia- respondeu assustado.
-Não tenha medo, não quero fazer mal algum. Tenho uma oportunidade de mudança de vida.
-Mudança de vida?
-Sim, senhor... como se chama?
-Carlos. Carlos da Silva.
-Carlos, então. Eu sou caça-talentos. Sabe o que é isso?
-Caça-talentos? Por acaso é aquelas pessoas que encontram artistas?
-Isso mesmo! E por isso estou aqui falando com você. Notei seu potencial, percebi que atrás de toda essa sujeira existe um homem bom.
Nesse momento, Carlos ficou pensativo. O que aquele homem estranho queria com ele? Seria um seqüestrador? Se fosse, nunca veria resgate, ele era pobre. E se fosse um caça-talentos de verdade? Seria possível encontrar algum talento nele, uma rapaz pobre, sujo e morador de rua?
Tom percebia no olhar de Carlos a desconfiança. Em muitos anos de profissão, tinha aprendido a interpretar a reação das pessoas.
-Não tenha medo Carlos. É que realmente vi uma chance de tirar você dessa vida. Você e alguns outros companheiros seus. Pode parecer estranho eu andar por aqui, mas eu quero ajudar pessoas como você. Cansei de escolher pessoas em shoppings, em faculdades caras e em condomínios de luxo.
Ele estava decidido a mudar a vida daquele homem. Com menos de cinco minutos de conversa, já não se preocupava com os outros moradores. Apenas ele. Ele seria o seu objetivo. Com a caneta em sua mão, escreveu em um papel o seu telefone. Anotou também o seu endereço, caso ele precisasse de um banho, de uma refeição. Despediu-se dele e voltou para a sua casa. Quando chegou em casa, desabou a chorar. Estava querendo fazer aquilo há dias. Chorou umas duas horas. Depois de se acalmar, ligou para aqueles que não o atenderam. Não era de ter intuições, não era sensível para isso, mas algo o dizia que seria a pior ligação de sua vida. Do outro lado da linha, alguém atendeu, com voz de choro.
Ele desligou. Não precisava de mais nada. Chorou mais uma vez.
- Por que não aceitou a minha ajuda? – gritava indignado.
Não demorou muito, e a ligação foi retornada. Ele apenas perguntou onde estavam, pegou alguns documentos e partiu em direção a eles. Dessa vez foi de carro. Avancou sinais vermelhos, entrou na contramão, excedeu os limites de velocidade. Porém, no tempo calculado estava à porta do prédio das janelas e portas de vidro. Algumas pessoas já esperavam por ele, então entregou os documentos necessários e subiu.
- Quarto 605. – alguém lhe disse.
Quando chegou, a imagem de alguém coberto por um lençol branco foi traumatizante. Correu e abraçou seu irmão.
-Por que recusaram a minha ajuda?
-Não podíamos aceitar. Não era justo.
-Eu queria ajudar. Acha que é justo eu chorar pela morte dela agora? Vive anos da minha vida com a sensação de abandono, de fragilidade. Qualquer chuva para mim era um tormento. Você sabe o que é ser abandonado na chuva? Sabe o que é viver 25 anos sem um abraço amoroso?
-Desculpe.
-Desculpas, desculpas! Eu queria tê-la por mais tempo. Queria aproveitar o que não tive em boa parte da minha vida. Eu tinha dinheiro para pagar o tratamento no exterior. Eu havia dito. Agora? Agora estou mais uma vez abandonado.
-Desculpe.
-Chega de pedir desculpas. Todos os papéis já estão encaminhados. As exéquias já foram pedidas, todo o funeral já foi organizado.
Depois disso, Tom voltou para casa. Não sem antes visitar Carlos. Chegando lá foi recepcionado com um caloroso abraço.
-Eu aceito sua ajuda Doutor...
-Doutor não, chame-me de Tom.
Depois do abraço, foram para o apartamento de Tom. Carlos jantou, se arrumou e acompanhou Tom no funeral. Após a cerimônia, já em casa, Tom agradeceu:
-Obrigado por me deixar te ajudar. Na noite antes de te conhecer, a chuva era a maior diversão pra mim. Tinha deixado de ser um trauma, pois minha mãe tinha me reconhecido, e se ela me abandonou aos sete anos na chuva, me aceitava aos 32 em um dia chuvoso. Hoje a chuva voltou a ser tristeza. Todas as despedidas de minha mãe foram regadas com chuva. Mas você, diferente de minha mãe, me deixou fazer parte de sua vida.
Nesse momento, lágrimas já escorriam dos olhos de Tom e de Carlos, ele continuou:
- Agora a minha vida tem sentido, agora eu não sou sozinho. Eu tenho valor para alguém, alguém que conheço tão pouco, como conhecia minha mãe.
Todo molhado, cantava feliz. Talvez se lembrasse de “Singing in the rain”, talvez não. O dia não fora fácil, mas andar cantando o fazia feliz. As ruas da metrópole não estavam cheias, a cidade estava parada. Passou em frente à padaria, o cheiro de pão fresco o fez sentir fome. Andou mais um pouco e passou em frente à farmácia, passou por inúmeras lojas de roupas, lanchonetes. Seus passos eram cada vez mais engraçados, andava rebolando, cantando, girando. Os alunos de uma escola riram dele quando por lá passou, mas ele não ligou. Mais alguns passos e chegou à portaria do condomínio. O porteiro abriu a portão, não o cumprimentou, Tom, sorridente, disse boa noite, mas foi ignorado. Subiu de escadas, o elevador estava passando por reformas. No seu apartamento, sozinho, tomou um banho quente, arrumou o jantar e foi ver um filme qualquer que passava na televisão. Adormeceu.
Acordou no dia seguinte com o telefone tocando. Atendeu, e com voz de sono despejou um “eu te amo”. Desligou o telefone e voltou para a cama. Não conseguiu dormir mais. Levantou, tomou café e foi ver o álbum de fotografias. Sua auxiliar já estava trabalhando, mas ele a convidou para sentar no sofá preto com almofadas vermelhas da sala íntima. Gargalharam com as fotos. Eram fotos de quando ele tinha cinco ou seis anos. Riram das roupas, riram das poses. Ouviu-se um barulho de trovão e a luz apagou. A manhã não estava tão clara para ficarem sem luz. Procuraram por velas, pararam de ver fotografias e a vida continuou. A chuva cessara. Tom refez o caminho da noite anterior, porém em sentido contrário. Dessa vez não estava mais feliz. Quando chegou ao destino, ninguém o atendeu. Assustou-se. Ninguém o avisara que não estariam para atendê-lo. Sentia o coração apertar. Colocou a mão no bolso para pegar o celular e notou que havia esquecido o aparelho em casa. Sua fisionomia revelava a preocupação. Onde estariam aqueles moradores? Sentia-se fraco. Chamou mais algumas vezes, perguntou aos vizinhos, mas ninguém sabia responder. “Teriam fugido?” pensou Tom.
Na volta para casa, não conseguia pensar em nada. Fora a caminhada mais longa de sua vida, e a mais dolorosa também. Algumas vezes olhava para o céu, mas nem sinal de chuva. Tudo o que queria era livrar-se daquela vida. Poucos metros antes de seu prédio desviou o caminho. Virou à esquerda, à direita e seguiu em frente. Chegou a um lugar sujo, fedido. As pessoas que ali habitavam, viviam nas ruas e não em casas. Eram pessoas sujas, e com toda certeza, ao tomarem um banho quente revelariam a sua beleza exuberante. Muitos ali certamente nunca viveram uma vida confortável. Nunca assistiram a um filme no cinema, não sabem o que é teatro e nem imaginam como é o final de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Tom não encontrava adjetivos para essas pessoas, mas via um futuro brilhante em muitos daqueles rostos.
Subitamente tirou do seu blazer uma caneta e alguns pedaços de papeis. Precisava ainda de seu celular, mas com aquilo que tinha em mãos encontrava a solução para as suas aflições. Chegou perto de um rapaz que aparentava ter em torno de 25 anos. O rapaz se esquivou, amedrontou-se. “É de um desses que eu preciso”, pensou Tom.
-Bom dia. Sou Tomas Aragão.
-Bom dia- respondeu assustado.
-Não tenha medo, não quero fazer mal algum. Tenho uma oportunidade de mudança de vida.
-Mudança de vida?
-Sim, senhor... como se chama?
-Carlos. Carlos da Silva.
-Carlos, então. Eu sou caça-talentos. Sabe o que é isso?
-Caça-talentos? Por acaso é aquelas pessoas que encontram artistas?
-Isso mesmo! E por isso estou aqui falando com você. Notei seu potencial, percebi que atrás de toda essa sujeira existe um homem bom.
Nesse momento, Carlos ficou pensativo. O que aquele homem estranho queria com ele? Seria um seqüestrador? Se fosse, nunca veria resgate, ele era pobre. E se fosse um caça-talentos de verdade? Seria possível encontrar algum talento nele, uma rapaz pobre, sujo e morador de rua?
Tom percebia no olhar de Carlos a desconfiança. Em muitos anos de profissão, tinha aprendido a interpretar a reação das pessoas.
-Não tenha medo Carlos. É que realmente vi uma chance de tirar você dessa vida. Você e alguns outros companheiros seus. Pode parecer estranho eu andar por aqui, mas eu quero ajudar pessoas como você. Cansei de escolher pessoas em shoppings, em faculdades caras e em condomínios de luxo.
Ele estava decidido a mudar a vida daquele homem. Com menos de cinco minutos de conversa, já não se preocupava com os outros moradores. Apenas ele. Ele seria o seu objetivo. Com a caneta em sua mão, escreveu em um papel o seu telefone. Anotou também o seu endereço, caso ele precisasse de um banho, de uma refeição. Despediu-se dele e voltou para a sua casa. Quando chegou em casa, desabou a chorar. Estava querendo fazer aquilo há dias. Chorou umas duas horas. Depois de se acalmar, ligou para aqueles que não o atenderam. Não era de ter intuições, não era sensível para isso, mas algo o dizia que seria a pior ligação de sua vida. Do outro lado da linha, alguém atendeu, com voz de choro.
Ele desligou. Não precisava de mais nada. Chorou mais uma vez.
- Por que não aceitou a minha ajuda? – gritava indignado.
Não demorou muito, e a ligação foi retornada. Ele apenas perguntou onde estavam, pegou alguns documentos e partiu em direção a eles. Dessa vez foi de carro. Avancou sinais vermelhos, entrou na contramão, excedeu os limites de velocidade. Porém, no tempo calculado estava à porta do prédio das janelas e portas de vidro. Algumas pessoas já esperavam por ele, então entregou os documentos necessários e subiu.
- Quarto 605. – alguém lhe disse.
Quando chegou, a imagem de alguém coberto por um lençol branco foi traumatizante. Correu e abraçou seu irmão.
-Por que recusaram a minha ajuda?
-Não podíamos aceitar. Não era justo.
-Eu queria ajudar. Acha que é justo eu chorar pela morte dela agora? Vive anos da minha vida com a sensação de abandono, de fragilidade. Qualquer chuva para mim era um tormento. Você sabe o que é ser abandonado na chuva? Sabe o que é viver 25 anos sem um abraço amoroso?
-Desculpe.
-Desculpas, desculpas! Eu queria tê-la por mais tempo. Queria aproveitar o que não tive em boa parte da minha vida. Eu tinha dinheiro para pagar o tratamento no exterior. Eu havia dito. Agora? Agora estou mais uma vez abandonado.
-Desculpe.
-Chega de pedir desculpas. Todos os papéis já estão encaminhados. As exéquias já foram pedidas, todo o funeral já foi organizado.
Depois disso, Tom voltou para casa. Não sem antes visitar Carlos. Chegando lá foi recepcionado com um caloroso abraço.
-Eu aceito sua ajuda Doutor...
-Doutor não, chame-me de Tom.
Depois do abraço, foram para o apartamento de Tom. Carlos jantou, se arrumou e acompanhou Tom no funeral. Após a cerimônia, já em casa, Tom agradeceu:
-Obrigado por me deixar te ajudar. Na noite antes de te conhecer, a chuva era a maior diversão pra mim. Tinha deixado de ser um trauma, pois minha mãe tinha me reconhecido, e se ela me abandonou aos sete anos na chuva, me aceitava aos 32 em um dia chuvoso. Hoje a chuva voltou a ser tristeza. Todas as despedidas de minha mãe foram regadas com chuva. Mas você, diferente de minha mãe, me deixou fazer parte de sua vida.
Nesse momento, lágrimas já escorriam dos olhos de Tom e de Carlos, ele continuou:
- Agora a minha vida tem sentido, agora eu não sou sozinho. Eu tenho valor para alguém, alguém que conheço tão pouco, como conhecia minha mãe.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
De um olhar infinito
Os passos lentos pela praia revelavam algo melancólico. Melancólico não era a adjetivação correta. Triste, sim, era triste o algo revelado pelos passos. O andar parecia levar ao infinito. A brisa que soprava fortemente do mar bagunçava os cabelos e levava alguns grãos da areia aos olhos, que permaneciam cerrados, a fim de evitar que os tais grãos perturbassem a visão. As ondas não estavam agitadas, e não deveriam estar, já que o vento não era tão forte assim, a ponto de agitar as águas do mar.
Escolheu a praia para caminhar, não porque todos os apaixonados a escolhem, mas porque sentia algo especial por esse tipo de ambiente. O perfume, a sensação de frescor, e a tendência ao infinito faziam com que se sentisse bem. Ainda era cedo, mas algumas famílias montavam as barracas para passarem o dia feliz na praia. Elas enfrentaram um trânsito caótico, carros quentes e apertados, carregavam dezenas de quinquilharias, e teriam que se adaptar ao clima litorâneo. Essas pessoas conheciam a cidade fantasia: as belas praias, algumas estátuas, o píer e um aquário antigo, mantido porcamente pela administração municipal.
Enquanto caminhava, sentia a areia ser compactada pelos seus pés, algumas conchas se quebravam quando acidentalmente pisava nelas. Nada disso o incomodava. Algumas vezes iniciava uma pequena corrida, que não durava alguns poucos segundos. Ainda andando, olhou para o mar, avistou um barco de pescadores, era pequeno, virando a cabeça, observou a multidão que lotava o espaço com areia até que chegou com o olhar na outra direção. À sua esquerda, uma menina e dois garotos arrumavam as toalhas que serviriam para tomar Sol. Num movimento similar ao de uma onda as toalhas foram se alojando no chão. Os adolescentes sorriam. O olhar voltou lentamente para frente, e quando chegou no centro, tudo escureceu, rapidamente clareou, notou o azul do céu, num movimento parabólico, até chegar numa posição em que apenas o azul era visível. Sentiu o impacto. As pálpebras se fecharam a tempo de protegerem os olhos da água salgada que rapidamente cobriu todo o seu rosto. Não foi o suficiente para que se afogasse. Sentiu a água indo embora, abriu os olhos e notou uma mão estendida oferecendo ajuda. Sua mão encontrou a mão alheia. Tinha aceitado a ajuda.
Levantou-se e cordialmente agradeceu a ajuda e a preocupação. O agradecimento foi aceito e, tão logo, já estava sozinho. Correu e chamou. Seus olhos a fitavam, seu coração batia acelerado. Alguns rostos viraram em sua direção, sentiu-se acuado. Quando o rosto também virou em sua direção. Os olhos pretos também o fitaram. Ele correu na direção dela. Queria saber o nome, de onde era, a idade, o que fazia. Queria saber tudo o que podia. Mas quando se aproximou, apenas perguntou o nome. Ao longe, uma mulher de meia-idade se aproximava dos dois. Antes mesmo de responder a pergunta, a mulher gritou o seu nome. Ambos riram encabulados.
- Sou Gregori. – disse sem que ninguém o perguntasse.
- Ah sim, desculpe. Não perguntei o seu nome. Como ouviu, sou a Tati, e aquela é minha irmã, Ana.
- Olá Ana! Encantado com a beleza de vocês.
- Não se encante conosco. Aqui tem muito mais coisas que provocam encantamento.
Após isso, deram as costas e deixaram Gregori pensativo, solitário, como estava antes.
O vento parou de soprar. Ele olhou no relógio e viu que já estava na hora de retornar. Virou 180 graus, e seguiu rumo à sua casa. Lá, havia mulheres muito mais encantadoras do que as duas que encontrara minutos antes nas areias da praia. Sua avó certamente estaria esperando por ele, com um delicioso café da manhã, e sua mãe e sua filha esperando para que ele as levasse até a escola.
Seus passos agora estavam alegres. Vira pela manhã o céu. Não conseguiu ver o anjo, só uma imitação, mas ver o céu foi suficiente para fazê-lo feliz. Precisava disso, e o anjo também.
Escolheu a praia para caminhar, não porque todos os apaixonados a escolhem, mas porque sentia algo especial por esse tipo de ambiente. O perfume, a sensação de frescor, e a tendência ao infinito faziam com que se sentisse bem. Ainda era cedo, mas algumas famílias montavam as barracas para passarem o dia feliz na praia. Elas enfrentaram um trânsito caótico, carros quentes e apertados, carregavam dezenas de quinquilharias, e teriam que se adaptar ao clima litorâneo. Essas pessoas conheciam a cidade fantasia: as belas praias, algumas estátuas, o píer e um aquário antigo, mantido porcamente pela administração municipal.
Enquanto caminhava, sentia a areia ser compactada pelos seus pés, algumas conchas se quebravam quando acidentalmente pisava nelas. Nada disso o incomodava. Algumas vezes iniciava uma pequena corrida, que não durava alguns poucos segundos. Ainda andando, olhou para o mar, avistou um barco de pescadores, era pequeno, virando a cabeça, observou a multidão que lotava o espaço com areia até que chegou com o olhar na outra direção. À sua esquerda, uma menina e dois garotos arrumavam as toalhas que serviriam para tomar Sol. Num movimento similar ao de uma onda as toalhas foram se alojando no chão. Os adolescentes sorriam. O olhar voltou lentamente para frente, e quando chegou no centro, tudo escureceu, rapidamente clareou, notou o azul do céu, num movimento parabólico, até chegar numa posição em que apenas o azul era visível. Sentiu o impacto. As pálpebras se fecharam a tempo de protegerem os olhos da água salgada que rapidamente cobriu todo o seu rosto. Não foi o suficiente para que se afogasse. Sentiu a água indo embora, abriu os olhos e notou uma mão estendida oferecendo ajuda. Sua mão encontrou a mão alheia. Tinha aceitado a ajuda.
Levantou-se e cordialmente agradeceu a ajuda e a preocupação. O agradecimento foi aceito e, tão logo, já estava sozinho. Correu e chamou. Seus olhos a fitavam, seu coração batia acelerado. Alguns rostos viraram em sua direção, sentiu-se acuado. Quando o rosto também virou em sua direção. Os olhos pretos também o fitaram. Ele correu na direção dela. Queria saber o nome, de onde era, a idade, o que fazia. Queria saber tudo o que podia. Mas quando se aproximou, apenas perguntou o nome. Ao longe, uma mulher de meia-idade se aproximava dos dois. Antes mesmo de responder a pergunta, a mulher gritou o seu nome. Ambos riram encabulados.
- Sou Gregori. – disse sem que ninguém o perguntasse.
- Ah sim, desculpe. Não perguntei o seu nome. Como ouviu, sou a Tati, e aquela é minha irmã, Ana.
- Olá Ana! Encantado com a beleza de vocês.
- Não se encante conosco. Aqui tem muito mais coisas que provocam encantamento.
Após isso, deram as costas e deixaram Gregori pensativo, solitário, como estava antes.
O vento parou de soprar. Ele olhou no relógio e viu que já estava na hora de retornar. Virou 180 graus, e seguiu rumo à sua casa. Lá, havia mulheres muito mais encantadoras do que as duas que encontrara minutos antes nas areias da praia. Sua avó certamente estaria esperando por ele, com um delicioso café da manhã, e sua mãe e sua filha esperando para que ele as levasse até a escola.
Seus passos agora estavam alegres. Vira pela manhã o céu. Não conseguiu ver o anjo, só uma imitação, mas ver o céu foi suficiente para fazê-lo feliz. Precisava disso, e o anjo também.
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