E chorava como uma criança quando tem dor. As lágrimas caiam pelo rosto de uma forma sofrida. Não podia evitar tamanho sofrimento. Ao seu lado, Vivian não podia fazer nada. Parada, apenas olhava como alguém olha para um retrato. Renan também não fazia nada, mas ele nem olhava, apenas escutava com angústia o soluçar.
O motivo das lágrimas é explicado retornando à uma tarde quente e ensolarada de novembro. Era dia 18. Sentados à beira-mar tomando água de coco para se refrescarem, nenhuma palavra era pronunciada. O barulho do mar misturava-se ao barulho da agitada Ipanema. As meninas não passavam no doce balanço a caminho do mar. Passavam, mas num balanço nada doce. Pareciam carnes expostas desfilando seus biquínis. As que estavam na areia, lembravam carne-seca, esturricada ao sol acompanhada de muito sal. Algumas brilhavam, outras avermelhavam, mas todas aproveitavam a tarde ensolarada. Com chapéus, chinelos e roupa, sentados estava o casal.
Vivian era branquinha, descendência alemã. Odiava o calor. Morava no Rio de Janeiro desde que se casou com Victor, um rapaz descendente de portugueses, que acreditava ter uma linhagem real, já que tinha um dos sobrenomes de Dom. Pedro II – Alcântara.
Casaram-se há cinco meses. Ela terminara a faculdade de Direito em Coimbra, ele ainda cursava Medicina na Universidade Estadual. A universidade ocupava toda a semana dele com aulas, residência e palestras. Ela trabalhava de segunda à sexta, com direito às quartas livres. Seus casos eram pequenos, mas garantiam vitória. Seu escritório ficava no centro. Ela era conhecida em toda a cidade, não pela profissão, mas porque era da linhagem de um Condado alemão, antes mesmo do 1º Reich.
Nessa mesma tarde ensolarada e sem assunto, o celular tocou. Após um pouco mais de duas horas ao telefone, um encontro estava marcado. Victor não acreditava no que ouvia. Era um domingo, único dia que poderia aproveitar a esposa e ela tinha um encontro. Para não deixá-lo sozinho, o convidou. Ele aceitou prontamente. Em pouco menos de três horas estavam em um restaurante esperando um cliente promissor.
Com quinze minutos de atraso, à porta do local aparecia um rapaz alto, bem vestido, com um costume muito bem cortado à italiana, vestindo uma gravata de seda azul, sapatos engraxados impecavelmente e um sorriso no rosto. Era o cliente aguardado.
Após cumprimentos e alguns risos, Victor pode reparar no rapaz que estava agora sentado à sua mesa conversando com sua esposa. O rosto era liso, sem marcas ou manchas. A barba meio loira muito bem desenhada realçava o queixo e afinava o rosto que já era fino. Os lábios eram bem desenhados, preenchidos no tamanho exato e de tom rosado. Os olhos eram azuis e redondos, mas não grandes. Era um rosto simétrico, equilibrado.
O assunto era intrigante. Despertava a curiosidade. Como podia, sua esposa, lidar com tamanha barbaridade? Ficaram no restaurante até tarde da noite. Voltaram para a casa. No caminho da Lapa até o Leblon só planejavam o que fariam com o dinheiro que Vivan receberia pelos honorários. Chegaram ao apartamento em que moravam e dormiram. Semanas se passaram. Victor precisaria viajar aos Estados Unidos para realizar um curso de especialização e concluir a faculdade de medicina. Após todos os acertos, embarcou, sem previsão de volta, já que precisaria cumprir residência médica no Hemisfério Norte. Vivian ficou sozinha. Para facilitar as coisas enquanto o marido viajava, resolveu trabalhar em casa. Levou para o escritório do apartamento pilhas e pilhas de documentos e passou a receber alguns clientes em casa, entre eles o do restaurante do domingo de novembro. Em pouco tempo, tornaram-se amigos, passavam muito tempo juntos analisando o caso, e entre o expediente tomavam café e riam.
Renan era o nome do cliente e, agora, amigo. Ele já estava tão acostumado com Vivian que não era raro ele aparecer trajando roupas esportivas, de chinelos. Ela estava carente, o marido partira há 4 meses. Certo dia, Renan apareceu de repente. Ela o mandou subir. Quando abriu a porta, uma surpresa: ele estava apenas de sunga, segurando uma toalha de banho nas mãos, usando um chinelo branco, com boné e óculos escuro. Ele estava a convidando para um banho de mar. Ela recusou, alegando ter muito trabalho e que estava com saudades do esposo. Ele entendeu perfeitamente e foi embora.
Nesse dia, Vivian pode reparar no Renan que ainda não conhecia. Por baixo de roupas esportivas e sociais como aparecera outrora estava um Renan que vinha dos sonhos de qualquer garota adolescente. Ela vira um corpo escultural, com tórax bem definido, barriga malhada e pernas torneadas. Aquele corpo poderia levar qualquer mulher ao delírio, até mesmo ela, que era casada com um estudante de medicina sem tempo para malhar e não tinha um corpo desenhado como o de Renan.
Outras visitas inesperadas aconteceram, até que uma foi fatídica. Vestido, porém, Renan fez uma proposta indecente. Queria que Vivan participasse de algo ilegal. Vivian hesitou, mas aceitou. Eram dois infratores.
Após alguns dias repletos de ensaios e planos, foram para a concretização.
Combinaram de se encontrar na Lagoa, às 21 horas. Era um bom horário para quem precisava fazer tudo escondido. Nesse dia não fez calor na capital fluminense. Vivian foi apanhada no local combinado e partiram rumo à região dos Lagos. Na calada da noite, concretizariam o que planejaram. Tudo ocorria de maneira perfeita. Ruas vazias, um portão entreaberto e uma cópia da chave da porta dos fundos no esconderijo. Na vizinhança não havia cachorros. Pouco ou quase nenhum barulho era produzido. Entraram na casa e não tiveram nenhuma surpresa. Todas as salas do térreo estavam vazias, a cozinha e o lavabo também. No alto da escada já podiam ver todas as luzes apagadas. O quarto escolhido era o último do corredor. Abriram a porta com cuidado e executaram o serviço. Almofadas abafaram os gritos. O punhal foi certeiro, bem no coração. Saíram com cautela da casa e voltaram para o Rio. Chegaram quase no horário do almoço. Dirigiram-se à uma cantina italiana e ao som de Tarantela e regado com muito vinho se deliciaram. Naquele dia o vinho não era tinto.
Vivian voltou para o apartamento no Leblon, ligou para o marido, falou que sentia saudades e que o amava. Tomou um banho que quase foi interrompido pelo interfone. Era um detetive de polícia. Em pouco menos de duas horas de interrogatório ela estava na delegacia de polícia, frente a frente com Renan, bem vestido, com um costume francês, sapatos feito à mão e uma bela gravata de cetim. O sorriso continuava no rosto como o sorriso do primeiro encontro. Os cabelos bem penteados, a barba aparada, mostrando uma elegância incomum. Fizeram exames juntos. Dessa vez, Vivan viu muito mais do que tinha visto no dia do primeiro convite para um banho de mar. Dessa vez não se deliciou com o que viu. O corpo continuava atraente e bonito, mas as circunstâncias a impediam tal deleite. Renan não parava de olhar para ela, que permaneceu encabulada durante todo o exame. Não estava encabulada com o que ocorria na sala, mas pelo que fizera na noite anterior.
Assim que soube da notícia, Victor retornou ao Brasil. Pensava em meios de salvar a mulher que amava. Era tarde. Na visita, chorou como uma criança. Não porque sua esposa estava presa, mas porque ela estava viva. Casara com a assassina de sua própria mãe. Não chegou a tempo de acompanhar o funeral, não pode se despedir de sua mãe. A única coisa que fazia era chorar, assistido por uma mulher de olhar frio. Para o homem, apenas fazia uma música. Angustiante e dolorida. O arrependimento tomava conta de um corpo desejado.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
A Capital
Quando o telefone tocou dei um pulo de alegria. Esperava dias por uma ligação. Desde que fora à Dinamarca há cinco anos não ligou para mim. Ao mesmo tempo em que estava feliz, sentia medo. Será que o amor ainda resistia ao tempo? E se existisse algum homem em sua vida? Não tinha as respostas para as minhas perguntas.
Corri e atendi ao telefone. Em segundos lembrei-me de tudo o que fizermos juntos. Quantas lágrimas derrubei, quantos risos, passeios e carinhos.
Lembrei-me de um acontecimento importante. Foi quando ela recebera a resposta de seu trabalho. Esperávamos juntos pela carta. O carteiro bateu à porta, nós corremos e até abraçamos o carteiro, que ficou ali, parado, sem nada entender. Resolvemos que leríamos no jardim, já que lá foi o lugar da decisão de tentar um novo emprego. Sentamos no banco de ferro de quase cem anos e abrimos a carta. Trocávamos beijos. Nossos olhos brilhavam de alegria. Nossa certeza de que moraríamos na capital era tamanha, que até já tínhamos comprado um belo apartamento. Abrimos a carta e vimos que ela fora aceita na empresa. Rimos, comemoramos, ligamos para os nossos pais, para os nossos amigos, marcamos uma reunião de família, contratamos garçons, decoramos nosso jardim, preparamos alguns pratos e recebemos nossos convidados. Era a nossa despedida da pacata cidade do interior. Iríamos para a Capital.
Na manhã seguinte nossas malas estavam prontas, os móveis embalados e esperávamos pelo caminhão de mudanças. Despedi-me dos meus alunos, dos companheiros de trabalho, do material dourado. Quando percebi, já sentia o ar um pouco mais carregado. Respiramos fundo, estávamos na capital!
O ar seco, ruas lotadas e pavimentadas, edifícios, lojas, construções antigas ao lado de novas. Enquanto os funcionários arrumavam os nossos móveis no apartamento, dirigimo-nos até a empresa de minha esposa. Fomos recebidos como reis. O diretor da companhia nos recebeu em sua sala, e em meio a risos e cumprimentos, pediu nosso passaporte. Passaporte? Éramos brasileiros, não precisávamos desse documento. Desculpamo-nos e falamos que não estávamos com o documento solicitado. Desapontado, o diretor olhou para a minha esposa e perguntou se tínhamos lido atentamente a correspondência. Precipitei-me e respondi negativamente. Ele rapidamente no explicou que minha esposa fora aceita, mas para trabalhar na Europa. Ele nos mandou á Polícia Federal. Nós fomos.
No caminho, só pensávamos que, com o nosso novo apartamento, sem podermos vender a casa do interior, não teríamos dinheiro para pagar a minha passagem. Antes mesmo de chegarmos ao nosso destino, tomei uma decisão. Ela iria antes, e depois de um tempo juntando dinheiro, eu embarcaria. Em menos de dois meses lá eu estava, no Aeroporto Internacional Salgado Filho chorando ao ver minha esposa entrar na aeronave com destino à Dinamarca.
Para me manter sozinho na capital, voltei à sala de aula. Consegui duas turmas do ensino fundamental, e os ensinava matemática. Com pouco mais de um ano da data da partida, eu já era diretor. Minha vida na capital caminhava muito bem. Depois de três anos, sem contato com minha esposa, já não lembrava mais de sua voz, do seu cheiro, do seu toque.
Hoje, depois de cinco anos ela resolveu me ligar. Durante todo esse tempo fiquei sozinho, entre Porto Alegre e Uruguaiana, mas e ela, ficou sozinha? Ouvi um “alô”. Meus olhos encheram de lágrimas. “Tem como me buscar no Salgado Filho? Resolvi fazer uma surpresa. Fui transferida para o Brasil e passarei o resto da minha vida ao seu lado.”
Não pensei duas vezes. “Em menos de trinta minutos estarei ai.”
Desliguei o telefone.
Corri e atendi ao telefone. Em segundos lembrei-me de tudo o que fizermos juntos. Quantas lágrimas derrubei, quantos risos, passeios e carinhos.
Lembrei-me de um acontecimento importante. Foi quando ela recebera a resposta de seu trabalho. Esperávamos juntos pela carta. O carteiro bateu à porta, nós corremos e até abraçamos o carteiro, que ficou ali, parado, sem nada entender. Resolvemos que leríamos no jardim, já que lá foi o lugar da decisão de tentar um novo emprego. Sentamos no banco de ferro de quase cem anos e abrimos a carta. Trocávamos beijos. Nossos olhos brilhavam de alegria. Nossa certeza de que moraríamos na capital era tamanha, que até já tínhamos comprado um belo apartamento. Abrimos a carta e vimos que ela fora aceita na empresa. Rimos, comemoramos, ligamos para os nossos pais, para os nossos amigos, marcamos uma reunião de família, contratamos garçons, decoramos nosso jardim, preparamos alguns pratos e recebemos nossos convidados. Era a nossa despedida da pacata cidade do interior. Iríamos para a Capital.
Na manhã seguinte nossas malas estavam prontas, os móveis embalados e esperávamos pelo caminhão de mudanças. Despedi-me dos meus alunos, dos companheiros de trabalho, do material dourado. Quando percebi, já sentia o ar um pouco mais carregado. Respiramos fundo, estávamos na capital!
O ar seco, ruas lotadas e pavimentadas, edifícios, lojas, construções antigas ao lado de novas. Enquanto os funcionários arrumavam os nossos móveis no apartamento, dirigimo-nos até a empresa de minha esposa. Fomos recebidos como reis. O diretor da companhia nos recebeu em sua sala, e em meio a risos e cumprimentos, pediu nosso passaporte. Passaporte? Éramos brasileiros, não precisávamos desse documento. Desculpamo-nos e falamos que não estávamos com o documento solicitado. Desapontado, o diretor olhou para a minha esposa e perguntou se tínhamos lido atentamente a correspondência. Precipitei-me e respondi negativamente. Ele rapidamente no explicou que minha esposa fora aceita, mas para trabalhar na Europa. Ele nos mandou á Polícia Federal. Nós fomos.
No caminho, só pensávamos que, com o nosso novo apartamento, sem podermos vender a casa do interior, não teríamos dinheiro para pagar a minha passagem. Antes mesmo de chegarmos ao nosso destino, tomei uma decisão. Ela iria antes, e depois de um tempo juntando dinheiro, eu embarcaria. Em menos de dois meses lá eu estava, no Aeroporto Internacional Salgado Filho chorando ao ver minha esposa entrar na aeronave com destino à Dinamarca.
Para me manter sozinho na capital, voltei à sala de aula. Consegui duas turmas do ensino fundamental, e os ensinava matemática. Com pouco mais de um ano da data da partida, eu já era diretor. Minha vida na capital caminhava muito bem. Depois de três anos, sem contato com minha esposa, já não lembrava mais de sua voz, do seu cheiro, do seu toque.
Hoje, depois de cinco anos ela resolveu me ligar. Durante todo esse tempo fiquei sozinho, entre Porto Alegre e Uruguaiana, mas e ela, ficou sozinha? Ouvi um “alô”. Meus olhos encheram de lágrimas. “Tem como me buscar no Salgado Filho? Resolvi fazer uma surpresa. Fui transferida para o Brasil e passarei o resto da minha vida ao seu lado.”
Não pensei duas vezes. “Em menos de trinta minutos estarei ai.”
Desliguei o telefone.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
Flor da vida inteira
E quando viu, o relógio estava parado. Não, não era só o relógio. Sentia que o mundo não girava mais, as pessoas não envelheciam e nem as flores floresciam. O Sol, parado na posição indicativa das nove horas deixava o clima agradável. A brisa que vinha do vale era fresca. O barulho da cachoeira era incessante, mas tranqüilizava até o mais agitado ser humano. Os pássaros alimentavam seus filhotes no ninho. Augusto observava tudo atentamente. Os cabelos louros e lisos movimentavam-se com a brisa. Algo no chão se moveu, e chamou a atenção do belo rapaz. Era um pequeno lírio branco.
-Como se move? – questionou o rapaz.
Olhando fixamente para a flor, não entendia como aquilo ocorria.
-Tudo está parado, porque se move? – Voltou a questionar.
Uma voz doce e suave respondeu:
- Movimento-me com as batidas de seu coração. Se ele bate de forma acelerada sou capaz de crescer, ganhar novas pétalas, se ele bate lentamente, não cresço, fico da forma como estou até faltarem-me forças e eu começar a murchar.
-Não quero me responsabilizar por seu crescimento – retrucou o garoto –olhe ao seu redor. Sou o responsável por tudo isso que acontece agora?
A voz não tornou a responder. A flor começava a murchar. Augusto suava frio, sem entender o que era aquilo de verdade. Seria um sonho? Poderia ser. Nada era real, tudo era fantasia. Custava-lhe muito entender.
Resolveu andar. Após umas cinco horas, conforme seus cálculos, já que tudo estava parado, sentiu-se cansado. Lembrou-se da cachoeira, e voltou para beber um pouco de água e descansar. Chegou a encontrar a montanha e o leito do rio. Mas não havia cachoeira, não havia água. Tudo estava seco. O verde da grama viçosa dava lugar ao marrom. O colorido de todas as flores estava desaparecendo. Apenas o lírio branco insistia em manter-se vivo, embora murcho. Cansado e sem água para refrescar-se, dormiu sob a relva seca. Sonhou com uma moça bonita. Não a conhecia, disso ele tivera certeza após acordar e lembrar-se do sonho. Por um instante sentiu uma fisgada no peito.
Passou um bom tempo pensando na bela moça. Era loura, com o jeito de menina, encantadora, sim, encantadora era a melhor adjetivação. Sua beleza ultrapassava a caracterização física. Ia além do que os olhos podiam ver. Impaciente, não parava mais de pensar nela.
Voltou a dormir, e quando acordou notou a presença feminina. A moça dos sonhos aparecera por lá, onde até o Sol estava paralisado. Pessoalmente era muito mais encantadora. Incrédulo com o que via, apenas admirava. Admirava o que para ele era irreal. Observava cada detalhe. Os olhos azuis, os belos cabelos dourados, o corpo muito bem contornado. A ingenuidade o cativava.
-Admira-me mais. Também estou o admirando. – disse uma voz doce e suave.
-Tal voz é inconfundível. Não olho para você pequeno lírio. Olho para a moça dos meus sonhos. Você é lindo, mas não o admiro agora. – respondeu Augusto.
Silêncio.
O silêncio era tudo o que conseguiam fazer. A moça deixava-se admirar, e o lírio conformava-se com a ausência de Augusto naquele momento. Aos poucos uma água fresca passava pelos pés do menino. O barulho da cachoeira voltava a quebrar o silêncio. Imediatamente Augusto olhou para o chão. Uma linda flor branca voltava a viver, dessa vez muito mais bonita. Ao redor dela, pequenos botões de rosa coloridos nasciam. O cenário voltava a ter vida e uma beleza inconfundível. Tão logo, o Sol começou a mover-se. Augusto notou pelo movimento que sua sombra agora fazia. A bela moça apenas sorria.
-És como o lírio. –ele disse.
Resolveu abraçá-la. Hesitou um pouco antes de agir, mas o fez. Abraçou-a como se a abraçasse pela última vez. Ao seu ouvido, a vos doce falou:
-Terá toda a sua vida para me abraçar. Só não esqueça de regar o lírio, pois com ele eu vivo.
-Como se move? – questionou o rapaz.
Olhando fixamente para a flor, não entendia como aquilo ocorria.
-Tudo está parado, porque se move? – Voltou a questionar.
Uma voz doce e suave respondeu:
- Movimento-me com as batidas de seu coração. Se ele bate de forma acelerada sou capaz de crescer, ganhar novas pétalas, se ele bate lentamente, não cresço, fico da forma como estou até faltarem-me forças e eu começar a murchar.
-Não quero me responsabilizar por seu crescimento – retrucou o garoto –olhe ao seu redor. Sou o responsável por tudo isso que acontece agora?
A voz não tornou a responder. A flor começava a murchar. Augusto suava frio, sem entender o que era aquilo de verdade. Seria um sonho? Poderia ser. Nada era real, tudo era fantasia. Custava-lhe muito entender.
Resolveu andar. Após umas cinco horas, conforme seus cálculos, já que tudo estava parado, sentiu-se cansado. Lembrou-se da cachoeira, e voltou para beber um pouco de água e descansar. Chegou a encontrar a montanha e o leito do rio. Mas não havia cachoeira, não havia água. Tudo estava seco. O verde da grama viçosa dava lugar ao marrom. O colorido de todas as flores estava desaparecendo. Apenas o lírio branco insistia em manter-se vivo, embora murcho. Cansado e sem água para refrescar-se, dormiu sob a relva seca. Sonhou com uma moça bonita. Não a conhecia, disso ele tivera certeza após acordar e lembrar-se do sonho. Por um instante sentiu uma fisgada no peito.
Passou um bom tempo pensando na bela moça. Era loura, com o jeito de menina, encantadora, sim, encantadora era a melhor adjetivação. Sua beleza ultrapassava a caracterização física. Ia além do que os olhos podiam ver. Impaciente, não parava mais de pensar nela.
Voltou a dormir, e quando acordou notou a presença feminina. A moça dos sonhos aparecera por lá, onde até o Sol estava paralisado. Pessoalmente era muito mais encantadora. Incrédulo com o que via, apenas admirava. Admirava o que para ele era irreal. Observava cada detalhe. Os olhos azuis, os belos cabelos dourados, o corpo muito bem contornado. A ingenuidade o cativava.
-Admira-me mais. Também estou o admirando. – disse uma voz doce e suave.
-Tal voz é inconfundível. Não olho para você pequeno lírio. Olho para a moça dos meus sonhos. Você é lindo, mas não o admiro agora. – respondeu Augusto.
Silêncio.
O silêncio era tudo o que conseguiam fazer. A moça deixava-se admirar, e o lírio conformava-se com a ausência de Augusto naquele momento. Aos poucos uma água fresca passava pelos pés do menino. O barulho da cachoeira voltava a quebrar o silêncio. Imediatamente Augusto olhou para o chão. Uma linda flor branca voltava a viver, dessa vez muito mais bonita. Ao redor dela, pequenos botões de rosa coloridos nasciam. O cenário voltava a ter vida e uma beleza inconfundível. Tão logo, o Sol começou a mover-se. Augusto notou pelo movimento que sua sombra agora fazia. A bela moça apenas sorria.
-És como o lírio. –ele disse.
Resolveu abraçá-la. Hesitou um pouco antes de agir, mas o fez. Abraçou-a como se a abraçasse pela última vez. Ao seu ouvido, a vos doce falou:
-Terá toda a sua vida para me abraçar. Só não esqueça de regar o lírio, pois com ele eu vivo.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
O romance da Vuitton
Eu não era tudo o que ela tinha na vida. Havia quatro filhos, dois ex-maridos, um cachorro e alguns peixinhos. Sua vida era ocupada pelos serviços domésticos, atividades dos filhos e seu emprego. Trabalhava em uma pequena redação. Era um jornal de pequena circulação, nada além de quatro ou cinco municípios sem importância.
Sempre bem vestida, não dispensava um bom sapato e sua bolsa Louis Vuitton. Poderia não estar com roupas caras, mas sua bolsa era sempre uma Vuitton. Não ostentava luxo, não tinha uma mansão e nem um bom carro importado na garagem. Para o emprego, deixava seu carro usado na garagem e usava um ônibus municipal. O carro só servia para a locomoção dos filhos ou alguma emergência. Combustível era caro e a manutenção também, além dos gastos com seguradora de autos, que cobrava um absurdo por uma lata-velha.
Na redação, cuidava de tudo. Era a editora, a redatora, a repórter e a fotógrafa. As vezes, era até mesmo a recepcionista e a secretária. Não tomava café, apenas chá e sempre sem açúcar. Seu estômago não tolerava leite. Só de ouvir essa palavra, já podia sentir as dores. Era uma excelente profissional, embora alguns não gostassem dela por causa de suas manias. Uma das mais irritantes eram as repetições. Tinha dias em que contava umas oito vezes a mesma historia. Quando isso acontecia, a melhor saída era ignorá-la. Contudo, como já dito anteriormente, era uma boa profissional.
Um de seus dois ex-maridos, o primeiro, ainda era ciumento. Não gostava quando ia buscar o filho no final de semana e a visse vestindo saias. Eram separados há 17 anos, mas parecia que ele ainda gostava dela. Seus olhos brilhavam sempre que a via e seu coração parecia sair pela boca. Ela sempre discreta, fingia não ver tais reações.
Seu segundo ex-marido era mais assanhado. Cada vez que ia buscar os outros três filhos aparecia com uma dama diferente. Esse fora o motivo da separação. Os olhos dele não brilhavam para ela, assim como nunca brilhara antes. Após 5 anos de separação, ainda não entendia como fora, um dia, apaixonar-se por um homem como ele.
Entrei na sua vida ao acaso, se é que casualidade existe. Acontece que um dia, ela, voltando da redação indo em direção ao ponto de ônibus, falando ao celular, não percebeu que vinha em minha direção. Eu andava distraído, cheio de livros na mão, uma lata de refrigerante, falando ao celular também e olhando para um rabo-de-saia qualquer que passava. Na frente de uma pequena joalheria com ares provincianos, trombamos. Meus livros espalharam-se todos pelo chão, a lata de refrigerante voou para longe. Ela se abaixou e começou a me ajudar a recolher os livros. Recolhemos todos, todos menos um, que ficou pela calçada. Naquele instante em que trombamos algo de profundo nos tocou. Era como se já nos conhecêssemos.
Convidei para um café na lanchonete da esquina. Sabia que lá tinha o melhor cappuccino de toda a cidade. Tomamos um café demorado, quase duas horas. Conversamos, demos risada e quase na hora de sair, trocamos os telefones.
Ela pegou o 158, eu o 003. Morávamos longe um do outro. Ela tinha quase 40, eu 20.
Todos os dias, nos mesmo horário, tomávamos o nosso demorado café. E tudo ficou assim. O vazio do livro foi preenchido pelo riso de uma mulher bem vestida de bolsa Vuitton, que certamente carregava um romance depois daquela tarde.
Sempre bem vestida, não dispensava um bom sapato e sua bolsa Louis Vuitton. Poderia não estar com roupas caras, mas sua bolsa era sempre uma Vuitton. Não ostentava luxo, não tinha uma mansão e nem um bom carro importado na garagem. Para o emprego, deixava seu carro usado na garagem e usava um ônibus municipal. O carro só servia para a locomoção dos filhos ou alguma emergência. Combustível era caro e a manutenção também, além dos gastos com seguradora de autos, que cobrava um absurdo por uma lata-velha.
Na redação, cuidava de tudo. Era a editora, a redatora, a repórter e a fotógrafa. As vezes, era até mesmo a recepcionista e a secretária. Não tomava café, apenas chá e sempre sem açúcar. Seu estômago não tolerava leite. Só de ouvir essa palavra, já podia sentir as dores. Era uma excelente profissional, embora alguns não gostassem dela por causa de suas manias. Uma das mais irritantes eram as repetições. Tinha dias em que contava umas oito vezes a mesma historia. Quando isso acontecia, a melhor saída era ignorá-la. Contudo, como já dito anteriormente, era uma boa profissional.
Um de seus dois ex-maridos, o primeiro, ainda era ciumento. Não gostava quando ia buscar o filho no final de semana e a visse vestindo saias. Eram separados há 17 anos, mas parecia que ele ainda gostava dela. Seus olhos brilhavam sempre que a via e seu coração parecia sair pela boca. Ela sempre discreta, fingia não ver tais reações.
Seu segundo ex-marido era mais assanhado. Cada vez que ia buscar os outros três filhos aparecia com uma dama diferente. Esse fora o motivo da separação. Os olhos dele não brilhavam para ela, assim como nunca brilhara antes. Após 5 anos de separação, ainda não entendia como fora, um dia, apaixonar-se por um homem como ele.
Entrei na sua vida ao acaso, se é que casualidade existe. Acontece que um dia, ela, voltando da redação indo em direção ao ponto de ônibus, falando ao celular, não percebeu que vinha em minha direção. Eu andava distraído, cheio de livros na mão, uma lata de refrigerante, falando ao celular também e olhando para um rabo-de-saia qualquer que passava. Na frente de uma pequena joalheria com ares provincianos, trombamos. Meus livros espalharam-se todos pelo chão, a lata de refrigerante voou para longe. Ela se abaixou e começou a me ajudar a recolher os livros. Recolhemos todos, todos menos um, que ficou pela calçada. Naquele instante em que trombamos algo de profundo nos tocou. Era como se já nos conhecêssemos.
Convidei para um café na lanchonete da esquina. Sabia que lá tinha o melhor cappuccino de toda a cidade. Tomamos um café demorado, quase duas horas. Conversamos, demos risada e quase na hora de sair, trocamos os telefones.
Ela pegou o 158, eu o 003. Morávamos longe um do outro. Ela tinha quase 40, eu 20.
Todos os dias, nos mesmo horário, tomávamos o nosso demorado café. E tudo ficou assim. O vazio do livro foi preenchido pelo riso de uma mulher bem vestida de bolsa Vuitton, que certamente carregava um romance depois daquela tarde.
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